O que vamos fazer com essa tal liberdade?


“O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?”, cantou o poeta Alexandre Pires em uma das canções mais famosas do pagode nacional. Fiz a opção pelo terrorismo poético logo de cara para celebrar o fato de estar ausente desta honorável plataforma digital há meses. Inclusive, talvez seja a última. Descobri que os vídeos “vou deixar o YouTube” têm mais visualizações que os normais. Aqueles perfis famosos do TikTok devem estar certos.


Considerando onde você está lendo isso e que, mesmo sem termos nos visto pessoalmente, compartilhamos alguns interesses, o que temos é uma bolha de convivência. Eu gosto de moto, você gosta de moto, os demais 17 milhões de visitantes desta página gostam de moto. Todos gostamos de moto e, em nossa amostragem, 100% da população aprova a moto. Yey!



E desde o cgzeiro de coyote até o bigtrailzeiro cai parado, o discurso de que moto é liberdade vai ser repetido à exaustão em grupos de entregadores dos aplicativos e no “Patagônia 2022 - Agora vai!”. Tudo embalado ao som de “Born to be Wild” e “Jesus numa moto”. Há um lado positivo: quando você vê alguém parado com a moto no acostamento e seu instinto vai te dizer para encostar e ver se pode ajudar. O negativo é que, tirando as motos, nós não somos esse grupo unido que imaginamos.


Temos liberdade de irmos aonde quisermos, desde que a moto esteja em ordem, o licenciamento pago, respeitemos as regras impostas e tenhamos dinheiro para pagarmos duplamente pelo uso das vias. Vai um pagamento para quem deveria administrar e outro para quem administra de fato.



Temos liberdade de compartilharmos as mais variadas ideias, mas optamos por repetirmos aquelas já estabelecidas em nós somente com aqueles que concordam. Temos liberdade de comprarmos a moto que quisermos, desde que tenhamos dinheiro, não seja visada para roubo e a montadora tenha a boa vontade de oferecê-la por aqui. Temos liberdade para comprar qualquer marca, mas 80% de nós ficamos de ronda por aí.



A pandemia não ajudou em nada. Já estávamos em um processo individualista de virtualização de todas as relações e ficar trancado em casa exacerbou tal comportamento. Descobrimos que não precisamos ir ao mercado, nem ter um porteiro no prédio, nem conversar com pessoas de opiniões diferentes por força de interações sociais físicas.


Tudo o que estamos fazendo agora é intermediado por uma tela, inclusive isso que eu e você estamos realizando agora. A sensação de comodidade e segurança do isolamento é perigosa uma vez estabelecida. Perguntem para os amigos psicólogos. Por mais que a internet tenha multiplicado as possibilidades de interação, criou uma geração de ansiosos e depressivos com medo do que há lá fora.


Liberdade levada a sério não é segura, não é cômoda, não tem tela. É por isso que o ato de andar de moto pode ser considerado como libertador. Você foca o pensamento em um ato real e não dá espaço para a ansiedade de não saber porque sua foto de gatinho no Instagram não deu as curtidas que você está esperando. Quando você sai com a moto, você assume que pode não voltar, que vai gastar dinheiro “à toa”, que vai pegar chuva. Mas também assume um compromisso com o real, não com o virtual. A moto não facilita o uso de celular e talvez por isso seja um dos últimos lugares onde realmente podemos ficar livres. Talvez por isso continuamos sobre duas rodas.



E o que estamos fazendo com essa tal liberdade? Brigando entre nós mesmos, nos separando do diferente, comungando apenas com aqueles que pensam como nós. Assistimos sem reação regras serem criadas para restringir a liberdade da moto por pessoas que nunca subiram em uma. A liberdade assusta quem não sabe lidar com ela. E se esse assustado se acha especial ou tem um cargo importante, trata de controlar todos os aspectos daquilo que não compreende ao invés de tentar compreender as necessidades dos outros.


Também vemos a liberdade do motociclismo sendo deturpada por uma lógica econômica que empurra milhares de desempregados a se tornarem “empreendedores das entregas”, arriscando-se todos os dias por um salário de fome para que um hipster com barba de lenhador e coque samurai tenha uma IPA artesanal numa sexta à noite chuvosa. O que é liberdade para nós é praticamente uma escravidão para quem não tem outra opção.



Quando usufruirmos da liberdade da moto sem sermos atiçados pelo chicote da mão invisível do mercado, temos que entender o tamanho de nosso privilégio. Saímos porque queremos, quando queremos, apenas por querermos. E é nessas horas que deveríamos estar olhando os motoboys nas ruas, com os escapes cortados para serem ouvidos e cometendo atrocidades em termos de respeito à lei de trânsito, sem subir em nossas tamancas moralistas.


No lugar de “que retardado”, ou “cadê a polícia para esses caras?”, deveríamos estar usando nossa liberdade e nosso privilégio para minimamente questionar o motivo dessa pessoa exbir com tal comportamento. Ele é louco ou está trabalhando há 12 horas? Ele desrespeita a lei ou corre para ganhar R$ 2 por entrega?


Mas usamos a nossa liberdade sobre duas rodas para nos isolarmos ainda mais. Se for para isso, faça um favor para todos e fique no celular. Você não mereceu sua liberdade, você comprou.


Lição de casa: saia de moto, rode mais que 100 km, não leve o celular.


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