Aquela vez que eu quase comprei uma Sundown Hunter 90


Sundown Hunter 90 quando era nova

O ano era 2007, este que vos fala tinha menos de um ano de carta e rodava 80 km por dia no trânsito de São Paulo (SP) entre faculdade e estágio. Desde que tirei a habilitação, já tinha abandonado o ônibus e ganhado tranquilamente umas duas horas do meu dia perdidos no transporte público ao usar uma moto.


O problema era a moto. Nada mais nada menos que uma Yamaha RD 135 1989 do meu pai, impecável e prestes a tirar placa preta. E eu lá, usando uma relíquia como se fosse uma Biz sem documento. Com alguns meses do salário de estágio no bolso e muita vergonha de estar estragando a moto do meu pai, dei meus primeiros passos em direção da compra da primeira moto.


Não queria usada. Eram tempos de pouca informação e eu precisava de algo com garantia pelo menos. Mas ainda estava com salário de estagiário. Qualquer coisa acima de R$ 2 mil já era fora de cogitação. Para o pessoal que se acostumou a ver Honda Pop 110i a R$ 7 mil hoje em dia, naquela época você podia comprar uma Sundown Hunter 90 0km por R$ 2.990. Era a única que cabia no orçamento. Não conhecia a marca, não sabia que a moto era chinesa. Olhei o preço e parti para o abraço.


Lembro-me como se fosse hoje. Estava sentado no computador vendo, digamos, algumas coisas que não deveria. Meu pai aparece de supetão e fala: “o que você está fazendo?”. Pessoas, preferia estar com um site pornô aberto. A cara do meu pai ao ver a página da Hunter 90 aberta foi impagável. Claramente não tinha avisado meu pai que estava atrás de uma moto nova.


Logo meu pai, motoqueiro de longa data, que calejou a canela no pedal de partida de uma XL 250 R. É nesse momento que sempre lembro como fui privilegiado de estar em uma família onde a moto é celebrada. Em uma casa onde ninguém sabe o que é moto, uma Sundown Hunter 90 passaria batido. Na minha, motivo de discussão.


“Nem a pau você vai comprar essa moto, vou ver alguma coisa pra você”, disse papai. Alguns dias depois, chamou-me no computador e começou a me mostrar a Suzuki Intruder 125. Foi paixão à primeira vista. Farol redondo, visual clássico, cromados de sobra. Se você está no Motorama, já namorou um Intruderzinha, pode admitir. Naqueles tempos, custava R$ 4.990, com roda de liga leve, partida elétrica e cavalete central, um baita negócio na comparação com a CG 125, que era mais cara e não tinha nada disso.


Já fazem 13 anos desde então, a minha Intruder não só me moldou enquanto motociclista, mas como pessoa também. Se vocês quiserem, eu me aprofundo mais nessa história, mas deixem aí nos comentários, porque o texto vai ser longo e o Guigo ainda não me pagou (risos nervosos).



Sundown Hunter 90 hoje

Voltando à Sundown Hunter 90. Aqui começo a falar das motos que acabaram meio que esquecidas em nosso mercado. Durante alguns anos, ela foi a moto mais barata do Brasil. A verdadeira pé de boi que prometia te tirar do ônibus, e só. Mas somos brasileiros e, além de não desistirmos nunca, também compramos motos para exibir aos vizinhos.


Junte a isso um projeto chinês, 5,6 pocotós de potência e uma rede de lojas ínfima e o resultado foi que a Hunter 90 ficou meio esquecida. Até recebeu alterações, virou Hunter 100, a Dafra chegou com a mesma moto, mas com adesivos diferentes, mas já era tarde e a Sundown faliu em 2011. Agora imaginem o pepino que eu teria nas mãos se tivesse comprado essa moto.


A Hunter 90 e, posteriormente, a Hunter 100, eram oriundos de um projeto chinês da Zongshen. Há 15 anos, quando as primeiras chegaram por aqui, acharam que seria como na China, ou até mesmo em outros países mais maduros, como o Uruguai: quem está comprando a moto mais barata não vai se importar de ela ser meio que descartável.


Estavam errados, aqui temos a lendária CG de coyote. Então queremos sim uma moto barata, que dê 200 km/h na BR e que dure para sempre. A Hunter não fez sucesso, mas pegou pessoas como eu, que não tinham conhecimento e só queriam uma moto barata, desprevinidas. Ao contrário de mim, que tive assessoria especializada dentro de casa, a maioria viu a Sundown definhar e convive até hoje com falta de peças.


É disso que eu falo quando digo que, antes de julgar qualquer moto, você precisa entender sua proposta ao invés de renegá-la diretamente ao limbo. A Sundown Hunter 90 veio de um tempo em que as chinesas davam seus primeiros passos por aqui. Queriam te oferecer algo pouco melhor que andar de ônibus, fim de papo. Nós, por outro lado, queríamos mais. Mas te garanto que uma Hunter 90 hoje te dá mais prazer ao dirigir a 40 km/h do que uma Yamaha R1, até porque o medo de morrer é constante.


Mas dentro de sua proposta, a Hunter 90 cumpria o que prometia. Barata de comprar, barata de manter e você não tinha que esperar ela chegar no ponto de ônibus. Se puder fazer um apelo, respeitem a Sundown Hunter 90 e parem de canibalizar os tanques dela para customizar CB400 (tô falando com você Guigo). Algumas unidades precisam sobreviver para contar a história. Uma história onde você podia ter uma moto simples para um propósito simples. Hoje, queremos tudo, mesmo quando não precisamos.


Não é de hoje que tenho sondado Sundown Hunter 90 e 100 usadas nos sites de compra e venda. Os preços são baixos, os problemas são altos. Mas, por mais que a Intruder tenha sido um ponto pivotal na minha vida, ficou um sentimento de “saudade daquilo que não vivemos”. Agora, peço licença que a moça da Hunter 90 sem documento do Facebook Marketplace me respondeu. Até a próxima.


Aaaaah, nem deve ser tanto pepino assim, vai

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