Do anoitecer ao amanhecer: Sport Glide

Desempenho e comportamento touring curva após curva


Muito se diz hoje sobre a falta de impacto da Harley-Davidson nas gerações mais novas. Muitos jovens não querem mais saber de tirar habilitação para dirigir carros, quanto mais motos. E mesmo a montadora de motos com o maior apelo de marca do mundo não exerce mais o mesmo fascínio.


Só que para quem cresceu nos anos 90, assistindo Exterminador do Futuro 2 e jogando Full Throttle, o impacto foi outro. Todos nós ficamos encantados. Alguns superaram essa fase mas não é o meu caso.



O mundo dos motociclistas se divide entre aqueles que amam as motos da Harley-Davidson e aqueles que as odeiam. Talvez isso aconteça porque quando falamos da montadora de Milwaukee estamos nos referindo a um imaginário e um universo de significados particulares. Quando o assunto é Harley-Davidson, a conversa muda de figura. Características consideradas por muitos como sendo as mais importantes em uma moto, como performance, aceleração e velocidade final dão espaço a um lugar aspiracional onde o que mais importa é a identidade própria do indivíduo.


Esses são os princípios mais estabelecidos nos aficionados pelas máquinas da H-D e no marketing da empresa. É nisso que o discurso da marca se baseia. É sobre autenticidade. Tem sido assim desde sempre, ou pelo menos desde Easy Rider. Mesmo que a sociedade tenha tentado assassinar (desculpe o spoiler mas o filme tem mais de cinquenta anos) o estilo de vida que o filme explora, ele ainda existe. E a contradição é que atualmente ele é emulado pela mesma sociedade que tentou o extinguir. Irônico, não?



Mudando de assunto


Estou escrevendo isso aqui logo após rodar 394km com a Sport Glide, e por mais que eu tenha divagando um pouco nas ideias acima, meu intuito era apenas fazer um registro do que se passava na minha cabeça enquanto eu rodava. Fui até onde a autonomia dela me levou e quando o painel acusou reserva, enchi o tanque e voltei pra casa. Foi tudo em uma tacada só.


Gosto de pilotar a moto de uma certa maneira, em certos lugares, em certos cenários, curtindo certas coisas. E não é possível fazer isso rodando a toda velocidade. Para mim, o foco na moto não é simplesmente a adrenalina a 200 por hora. A paisagem é tão importante quanto a passagem. Senão mais.


A Sport Glide integra a linha cruiser da H-D. Mais importante que isso, ela pertence à família Softail. É uma das linhas mais importantes dentro da marca porque incorporou outra família muito importante, a Dyna. As Softail tem um tipo de estrutura particular, onde as suspensões integram de forma precisa o próprio chassi graças à presença de um braço oscilante. Isso significa que o amortecedor traseiro fica “escondido” por baixo do assento, de forma que a moto fica com um aspecto mais limpo, típico das motos antigas de quadro rígido, conhecidas como “hardtail”. Por mais que esse não seja exatamente o caso da Sport Glide, por ela ter uma roupagem moderna e peças muito arrojadas, isso sem dúvida é fato em outras motocicletas da linha como a Deluxe e a Slim, infelizmente descontinuadas aqui no Brasil.



Em um momento na estrada acabei me juntando a um grupo de motociclistas e começamos a rodar juntos. Pensei: “legal vou fazer novos amigos”. Depois de cerca de 3 minutos rodando com eles, o que eu já sabia muito bem ficou evidente: os outros andam de moto muito mais do que eu. Dispararam na frente enquanto eu continuei rodando sozinho na estrada. Novos amigos? Quem sabe na próxima.


Não tem problema. Gosto de ir no meu próprio ritmo. A Sport Glide é linda e eu estou curtindo o auge da minha vida a bordo dela. Estou me sentindo o próprio Ben Throttle em sua Corley Motor. Butch Cassidy em fuga para a Bolívia.


O motor aqui é o Milwaukee-Eight 107. Talvez o maior responsável por tornar a nova geração de Harleys uma nova geração de fato. Ele é responsivo e empurra muito, sem falar na sua aparência maravilhosa e o tanto que isso contribui com a fachada da moto: uma junção perfeita entre o preto e o cromo. Pilotar a Sport Glide na estrada é como dirigir um muscle car americano moderno. Pessoalmente, eu adorei. Nunca tinha experimentado essa moto e estava só na vontade. Ao montar nela sinto imediatamente que estou em uma máquina moderna e potente e como nunca experimentei XR 1200x ou Buell, fiquei com a impressão de que ela estava me dizendo: “Sou o mais próximo de uma Harley esportiva que você conhece", e por mais estranho que isso possa soar, gostei do sentimento. Você dá a partida nela e pensa: “Que canhão”.



Quando ela chegou em 2018 eu estava em uma loja da marca acompanhando seu lançamento. Lembro da reação dos conservadores torcendo o nariz para ela enquanto iam pagar pau para a Iron 1200 que também estava sendo lançada naquela noite. Outra moto lançada na mesma ocasião foi a FXDR. A Sport Glide foi um dos modelos mais vendidos no ano passado. Enquanto isso a Iron 1200 e a FXDR já saíram de linha.


Hoje a Sport Glide custa 98 mil reais. Caríssima. O plano de tornar a marca (ainda mais) premium chegou antes do que imaginamos. Mas de todas as Harley-Davidson cruiser, ela junto com a Heritage, talvez seja a que oferece melhor custo benefício. Ela tem alforjes, cruise control e suspensão invertida. A peculiaridade desse modelo é que tanto as bolsas quanto a asa de morcego são facilmente removíveis por meio de um sistema de liberação rápida. Em dois minutos ela pode ir de uma touring a uma softail com visual agressivo.



Até hoje, eu ainda não havia estado durante tanto tempo a bordo de uma Harley-Davidson na estrada. Também não havia pilotado uma softail tão ágil. As pessoas precisam ter a chance de pilotar uma destas para entender o quanto uma máquina da fabricante de Milwaukee pode ser ágil, principalmente hoje em dia onde as Dyna não são mais fabricadas.



Contudo, percebi que a eficiência da moto pode ser em grande parte desperdiçada onde as curvas são muito fechadas. Foi o que senti no trecho de serra da BR-251 entre Brasília e Paracatu. Seria assim com qualquer moto com entre-eixos muito comprido e com a Sport Glide não foi diferente, por mais ágil que ela seja.



Do ponto de vista da emoção é uma moto que ainda vai me fazer sonhar acordado por muito tempo. Em seu site a H-D diz que essa é uma motocicleta indicada para quem busca desempenho e atitude touring. Se a missão era essa, foi cumprida com sucesso.






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