Aquela vez que eu adiantei as tendências para 2021


O que Pan America, Crise e ADV têm em comum?

Vamos combinar: ninguém vai ter muita coisa boa para lembrar de 2020. E estamos colocando esperança demais em 2021 sem ver que as condições ao nosso redor são exatamente as mesmas, se não piores. Eu vou aqui bancar a mãe Diná e usar meus poderes cósmico-fenomenais para dar um panorama do que deve acontecer no setor de duas rodas brasileiro.


Sabe os preços que não param de subir? Vai se acostumando


Houve dois fatores que colocaram bastante cabo de madeira no reto dos brasileiros no ano passado. Primeiro, a cotação do dólar disparou. Segundo, a pandemia fechou as fábricas de Manaus (AM) e, mesmo quando abriram, operam em ritmo mais baixo. Isoladamente qualquer um desses fatores seria o suficiente para aumentar o preço das motos.



Duvido que não chegou nada na sua casa via motofrete

De um lado, está mais caro produzir. Até mesmo a sua CG 100% nacional tem eletrônicos chineses importados e não há nada que você possa fazer. Do outro, a produção não atende a demanda. Demanda essa por motos novas que só cresceu pois muitos trabalhadores que perderam o emprego formal apelaram para os serviços de entregas por aplicativos. Peças caras + produção lenta + demanda alta = preços altos.


“Ah, mas eu vi no canal do Zézinho da R1 no YouTube que a média de preços nem subiu tanto assim”. Então, a média de preços não subiu tanto porque a Honda está operando no prejuízo desde o primeiro semestre e não mexeu nos valores das motos. A Honda tem 80% do mercado, então a média não foi afetada. Agora, as importadas, se deram mal. Olhe os preços das motos da Haojue pra entender.


“Scooter aventureiro” vai ser a moda de 2021



ADV: um PCX mais belo e capaz. Mas só um dos adjetivos é importante

Imaginem um Honda PCX 150. Agora imaginem ele com amortecedores de maior curso e acerto mais parrudo. Coloquem uns pneus mais largos com sobrenome “trail MT” e esse é o Honda ADV. História engraçada, esse scooter em qualquer lugar do mundo é um Honda ADV 150. Aqui, como é um scooter 150 que está beirando R$ 20 mil nas lojas, esconderam a cilindrada.


De qualquer forma, o apelo aventureiro vai pegar. E não vai pegar gente que tem CG e vai comprar uma Bros. É gente que não vai mais botar um pé num ônibus, nem perder um minuto a mais no trânsito e quer um scooter porque dá menos trabalho. Só que essa pessoa tem um Honda WR-V, ou seja, já paga R$ 10 mil a mais num Fit com suspensão melhor.


O ADV sem dúvidas é melhor que o PCX. Onde andamos, a suspensão sozinha vale os R$ 3 mil a mais. Só que não é isso que vai vender, é a ideia. Quando você compra um Jeep Renegade, você não está pensando em fazer trilha, mas você quer passar a imagem de aventura. O scooter novo da Honda vai fazer exatamente isso. Aí, como ele vai vender bem e tem uma margem melhor, todo mundo vai sair catando cavaco pra lançar um scooter parecido. Pode escrever.


Pan America: o Porsche Cayenne da Harley



Porsche Pan America, digo, Harley Cayenne, digo...

Falando em vender mais uma ideia do que uma moto, todos nós acompanhamos a agonia da Harley-Davidson. Prejuízo, projetos abandonados, troca de diretoria… foi complicado. Mas no meio desse turbilhão, a Pan America seguiu firme e forte. Deve chegar agora em fevereiro nos EUA e não duvido que desembarque no Brasil antes do final de 2021.


Da mesma forma que a Jeep percebeu que a ideia de aventura vende mais que a capacidade real do veículo, a Pan America usará a mesma filosofia. Ela não precisa atravessar o Sahara como a BMW R 1250 GS, ela só precisa parecer que faz isso. Jogue em cima o motor em V, a carenagem da CVO e uns amortecedores confortáveis e você tem a receita do sucesso no Brasil.


O segmento das grandes aventureiras quase não sentiu a crise de 2020. Quem compra motos de R$ 100 mil tem bala na agulha e, infelizmente, enriqueceu mais, enquanto a maior parte da população dependia de migalha dada de má vontade do governo. Vocês têm noção que uma GS 1250 parte de R$ 80 mil e foi a big trail mais vendida do Brasil?


E a maioria dos compradores não vai para o Atacama com elas. Só que, quando sai da Faria Lima (bairro rico aqui de SP) e vai para o Serra Azul (posto de gasolina a uma hora da cidade), a buraqueira dá aquela judiada nesse público. Para ter 80 mil e dar em uma moto, novo você não é. O público da Harley nunca foi novo. Os poucos que sobraram, migraram para as trails.


A marca não é boba. Manteve a Pan America porque ela tem potencial para salvar a Harley-Davidson da falência. É a mesma coisa que a Porsche fez. Fabricando praticamente apenas o 911, um dos melhores esportivos do mundo, quase foi à bancarrota no final da década de 1990. Inventaram de fazer um SUV rápido de luxo.


Todo mundo achou que os alemães estavam drogados quando lançaram o Porsche Cayenne. Hoje, para cada 911 vendido, três ou quatro Cayenne saem das lojas. Para falar a verdade, a Porsche hoje só tem dinheiro pra manter o 911 porque tem gente gastando horrores no Macan (SUV menorzinho) e no Cayenne. Não vou julgar a Harley Pan America antes de andar, mas espero de coração que ela dê certo da mesma forma que os SUVs salvaram a Porsche. Eu ainda quero uma Softail Deluxe, mas preciso de uns 30 anos ainda para juntar o dinheiro.


O ódio nosso de cada dia


Como faz muito tempo que eu não escrevo (me paga, Guigo), juntou muita coisa que eu queria só xingar em voz alta. Aí o que sobrou vai rapidinho aqui:


- Ninguém quer quebrar o “monopólio” da Honda, parem de me encher com isso. A Honda tem mais lojas do que a Igreja Universal tem pontos de venda, digo, templos. E as motos são boas; a fábrica constrói num ritmo alucinante (é uma CG a cada 20 segundos). Para chegar perto da Honda hoje, você precisa de um investimento bilhardário que vai operar no prejuízo por quase uma década só para roubar uns 20% de participação (mais que a Yamaha e a Haojue hoje somadas). Ninguém tem esse dinheiro, muito menos a força de vontade para se esforçar tanto para um retorno tão pequeno.




- “Ah, se ninguém comprar moto, o preço cai”. Com essa frase minha vontade é só socar mesmo, mas acompanha o tio: se ninguém comprar moto, a primeira coisa que acontece é demitirem na fábrica. Depois, em sequência, fecham lojas e fecham as fábricas em última instância. Sem fábrica, as motos ou vão ficar piores para bancar o preço que o mercado exige, ou vão quebrar as montadoras e você vai comprar tudo importado. Vê lá o mercado da Argentina pra vocês verem como é bom isso.


- Com essa história de que, de repente, o governo ficou bonzinho e não vai cobrar DPVAT em 2021, cansei de ver as notícias a respeito usando motos caídas na ilustração. PORQUE OBVIAMENTE SÓ MOTOQUEIRO SE MATA NO TRÂNSITO, pqp, francamente. E o governo não ficou bonzinho não, tá? Depois de meses de desvios e investigações, viram que a Seguradora Linda, digo, Líder, que comanda a máfia, digo, consórcio de seguradoras, tinha caixa o suficiente para se manter sem faturamento em 2021. Famoso acordinho por fora.


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