Bobber: ontem e hoje

Atualizado: Jun 4

Prestes a completar 100 anos, o "tratamento bobber" permanece mais relevante do que nunca


Uma bobber é uma bobber. Assim como não dá para reinventar a roda, não se pode reinventar a bobber. Essas motos tem um estilo muito bem definido desde sua origem, já nos anos 20 do século passado. As originais vêm desta década e foram construídas para melhorar a aparência e desempenho das motos da época. Fazer uma bobber significava remover todas as peças em excesso. Uma forma de perceber se isso havia sido feito com sucesso era observar se a geometria da moto respeitava uma linha diagonal imaginária que ia do eixo da direção até o eixo traseiro, sem nenhum “obstáculo” (com exceção do assento).


Harley Davidson modelo 1949 antes do “tratamento bobber”
Harley Davidson 1949 transformada em bobber

Assim como um hot-rod, a pegada nas bobber era fazer mudanças que melhoram a aparência e o desempenho do veículo. Essas duas coisas são o mais importante. A moto era reduzida aos seus elementos essenciais. Assim elas ficam com a aparência menos carregada e com o compromisso de rodar o máximo que seus motores permitirem. Suspensão nunca foi o forte: as bobbers clássicas eram feitas com motos hardtail


Sonny Barger com uma Knucklehead bobber em 1956

Esse conjunto de modificações se tornou o padrão para uma bobber e o estilo cresceu em popularidade, seja como motos de estrada, corrida ou exposição. Com o fim da Segunda Guerra, milhões de soldados americanos voltaram para casa com habilidades mecânicas que haviam adquirido ao trabalhar em veículos militares de todos os tipos. As modificações que tornavam uma Harley ou Indian uma legítima bobber eram feitas em casa. Não havia nenhuma oficina produzindo elas comercialmente.


Nos EUA a tendência surgiu simultaneamente na Costa Leste e na Califórnia na mesma época em que os hot-rods também estavam surgindo: tudo se resumia a customização. O principal interesse era em fazer com que as motos fossem únicas e relevantes. Não haviam catálogos de acessórios como os que existem hoje, e os pilotos e mecânicos usavam sua inteligência, criatividade e ferramentas para criar sua arte.


O livro “Big Sid’s Vincati” conta que a origem do nome bobber surgiu nas corridas de cavalos, em que os treinadores cortam o rabo do animal. Depois disso o termo evolui de "bobber" para "chopper" quando as mudanças passaram a incluir o alongamento da frente, mas essa é outra história...


Big Sid's Vincati conta a história de um dos maiores preparadores de moto que o mundo já viu

Além das Harleys e Indians que atendiam seu mercado doméstico, a Triumph também estava chegando para atender Estados Unidos e Canadá e ajudar a atender a demanda por motos prontas para passarem pelo “tratamento bobber”. É possível ver uma delas no filme “The Wild One”. Esse clássico de 1953 é um testemunho de como as bobber eram tendência. O filme tem muitos personagens e motos, mas os principais são Johnny (Marlon Brando) e Chino (Lee Marvin). Enquanto Johnny pilota um Triumph Thunderbird 650 que demonstra o mais alto nível do que uma plataforma europeia de cilindros paralelos poderia ser como bobber, seu rival Chino anda com uma Panhead que exemplifica o visual clássico de uma legítima bobber americana. O filme é uma ficção, mas seu roteiro é inspirado em acontecimentos reais da época e vale a pena assistir só para obter as referências clássicas da época.

Cena do filme "The Wild One" (O Selvagem) de 1953


...o avô do motociclismo customizado nos EUA


Da mesma forma que esse filme mudou tudo (ou pelo menos muita coisa) outro filme que mudou tudo foi Easy Rider. Quando o clássico estrelado por Dennis Hopper e Peter Fonda foi lançado, as bobbers automaticamente ficaram em segundo plano porque o sucesso do filme tornou as choppers instantaneamente populares em todo o mundo. Elas eram a grande novidade do momento e as bobbers viraram o avô do motociclismo customizado nos EUA. Mesmo assim elas continuaram a ser construídas por motociclistas que procuravam uma máquina diferente, nostálgica e que fosse muito rápida. De certa forma, um pouco parecido com o que acontece hoje. Mas com a diferença de que caso você não tenha o dinheiro ou o tempo para modificar muito uma moto para transformá-la em bobber você pode comprar uma pronta de fábrica. Neste caso você só vai precisar do dinheiro mesmo. Algumas das mais iradas são a Harley- Davidson Softail Slim e a Triumph Bobber. Com certeza o espírito de comprar uma moto cuja alma está na customização não é o mesmo que nossos antepassados tiveram ao construir e modificar uma com suas próprias mãos. Mas vivemos em tempos menos românticos e mais práticos.


Quero concluir a história de hoje com dois pontos:


1- O mercado de motos é um reflexo da sociedade e se hoje vemos motos com mais coisas do que somos capazes de usar, é porque as pessoas acreditam que precisam cada vez de mais coisas.

2- Se considerarmos que a Harley Davison lançou seu modelo J em 1915 e que após alguns ano no mercado ele se tornou uma das primeiras plataformas a serem utilizadas para a construção de uma bobber, acreditamos que esse estilo já completou 100 anos, ou vai completar a qualquer momento.


E hoje, mesmo sendo o estilo de customização mais antigo, ele é mais relevante que nunca porque mostra que ter motor, chassi, rodas e um pouco mais, as vezes já é o suficiente.


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