Aquela vez que rodei 400 km para NÃO comprar uma Vespa

Atualizado: Set 28

A Vespa já virou sinônimo de mobilidade na Europa. E faz isso desde a década 1940. Desenhada por uma pessoa que odiava motos, estreou o conceito de scooter. Em um momento mágico da história do Brasil, a Vespa PX 200 chegou a ser feita Manaus (AM), bem no final da década de 1980.


Moto esquisita ela. Câmbio no punho esquerdo, freio traseiro por pedal do lado direito. O motor fica de um lado e, para tentar deixar a moto menos desequilibrada, jogaram o estepe (sim, estepe) e a bateria do outro. Claro que isso não deu certo e, na opinião do meu pai, “ a pior moto que eu já andei”. Do jeito que eu sou vocês já imaginaram o que acontece depois: precisava ter uma. Até porque elas não foram bem aceitas por muito tempo. Na era Collor, a gente não tinha maturidade para ver as vantagens do scooter.


Eram os idos de 2012, bem no finalzinho. Como o jornalista fodelão com poderes cósmicos-fenomenais, estava avaliando aquele novo Fusca que a Volkswagen tinha trazido de volta. Era basicamente um Golf GTI mais legal. Precisava rodar com ele, precisava de uma Vespa. Não foi muito complicado juntar as duas ideias.


Mas fica um lembrete. Eu cheguei uns 2 anos atrasado para a festa do ressurgimento das Vespas por aqui. Eram tempos de pessoas voltando a ouvir vinil, moendo os próprios grãos de café orgânico, criando cervejarias artesanais, deixando uma barba de lenhador (oi Guigo!) e um coque samurai crescer. Claramente esse pessoal não ia comprar uma moto normal.


Eles queriam aquele “Je ne sais quoi” francês, o estilo italiano, Audrey Hepburn em “A Princesa e o Plebeu”. E qual era moto desse filme preto e branco? Uma Vespa. Eu tinha visto Vespas PX 200 nacionais em estado “bom o suficiente de conservação” por uns 3.500 golpes. Depois do advento hipster, uma meia boca não saía por menos de 7 paus.


Enfiei as caras nos sites de compra e venda, aplicativos mal existiam em 2012. Depois de árduos dias de pesquisa, achei uma Vespa até que bonitinha das fotos, mas estava em Aparecida do Norte (SP). Ida e volta, 400 km para ver uma moto que eu nunca tinha andado na vida.


Aí quando você vai fazer uma merda dessa, claramente você não pode ir sozinho. Peguei o Fusca, com o tanque cheio de graça, meu pai e a minha esposa, que era namorada na época. Joguei os dois nessa furada logo na semana entre o natal e o ano novo. Se o seu companheiro de vida não aceita de bom grado esses rolês aleatórios, considere a troca. Pais não tem muito o que fazer, não dá para trocar.


Em resumo, fomos até lá para perder a viagem. A Vespa tinha sido reformada. Foi quando aprendi o lema do “bonito nas fotos do anúncio, até eu”. Famoso “perdi a viagem”. Mas o rolê de Fusca novo valeu a pena de qualquer forma. Sai com o pensamento de que os malditos hipster tinham se metido entre mim e a minha Vespa.


Só que tem algo que não levei em consideração na época. Vespa é difícil de andar, tem que ficar colocando óleo dois tempos, chega fedento nos lugares. Lá para 2016, as Vespas deixaram de ser item comum nas portas das cervejarias artesanais e startups da vida. E tem outra, o hype agora é sustentabilidade. Uma Vespa fumacenta é o contrário disso.


Aí senhores, chegou o grande inimigo das PX 200: o patinete elétrico, ou aqueles trecos ridículos (na minha opinião) que parecem uma mini-harley elétrica e custam tanto quanto uma CG. São sob os capacetes desses trecos que hoje se escondem o coque samurai e o briefing de cases da startup. Só que, uma vez que os preços da Vespa subiram, não baixaram mais e está mais difícil encontrar uma por causa da idade. Ela conseguiu ser renegada duas vezes.


E se tem algo que e gosto mais que uma moto renegada, é uma moto que foi renegada duas vezes em tempos diferentes e por motivos diferentes. A Vespa PX 200 brasileira chegou 20 anos antes de alguém sequer saber o que era um scooter. Há cinco anos, perdeu o charme vintage para os temas de ecosustentabilidade.


Você pode até não gostar de scooter, ao que recomendo que você nunca ande em uma. Se andar, vai pagar a lígua, é bem divertido. No entanto, tenho certeza que gosta de uma experiência única e já pagou horrores para pular de paraquedas, ou um bom dinheiro para arremessar machados em bar de temática medieval, pode admitir.


A Vespa entrega exatamente isso. Andar nela é diferente de andar de moto e, mesmo os scooters de hoje, não guardam nenhuma semelhança. Dar a partida no pé, conferir a saúde do motor pelo cheiro da fumaça saindo do escape. Isso é comum de motos dois tempos. Acelerar e pender para um lado, ou frear e pender para outro enquanto briga para torcer o punho esquerdo e trocar de marcha, não. Quer ser mais hipster que um hipster? Ande de Vespa hoje.


A satisfação de conseguir domar essa fera é inigualável. Ela demanda tempo e habilidade de você, algo que cada vez menos temos ou estamos dispostos a doar para as coisas. Pensando bem, é como ouvir vinil. Não tem comodidade, é escolha. Andar de Vespa é fazer uma escolha rara. É doar seu tempo para algo porque você quer, não porque faz sentido. E esse é o tipo de terrorismo poético que eu apóio.


Ah, e dar 250 por hora da BR numa R1 qualquer idiota faz. Quero ver fazer corredor de Vespa. #PAS #bjosdeluz


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