Aquela vez que eu li: “scooter é ideal para as mulheres”


Olá pessoas, sentiram minha falta semana passada? Provavelmente não porque eu não sei quantos de vocês estão lendo o Portal Motorama com frequência. Queria fazer um texto mais tranquilo, talvez sobre a minha Intruder (me paga, Guigo) talvez sobre scooters. Mas, como diz o ditado: “o Brasil me obriga a beber”.


Mas prometo que vou falar de scooters e no final vai fazer sentido. Cola no pai que vocês passam de ano. Eu só preciso falar sobre a imposição de gênero e a repetição de comportamentos tóxicos numa sociedade extremamente machista com a nossa. Ainda mais em um meio motocoletístico que adora pagar de machão, mas pediu pra mãe custurar o patch da concessionária Harley-Davidson no colete. E sim, vou falar disso e vocês vão ler se não quiserem ver a carapuça servir.


Tudo começou quando eu era jovem, há uns três dias. Estava escrevendo um texto para um site que realmente me paga e o tema era daqueles bem batidos: “os scooters mais baratos do Brasil”. Aí eu parei, olhei para a tela e perguntei: “por que é O scooter, não A scooter como em qualquer outro tipo de moto?”. E, olha, entrei em uma espiral de desespero.



Primeiro que scooter é um objeto, por que ter gênero? É um conceito muito defendido pela comunidade LGBTQIA+. Não é necessário atribuir gênero a coisas que não dependem de gênero. Uma pessoa é uma pessoa e deve ser tratada como uma pessoa, gênero não vem ao caso. Moto é moto, um treco, uma coisa. “Ah, mas temos afeto com as motos e damos até nome pra elas”. Show, faça isso só com a sua apenas, tá?


Aí fui buscar na memória de onde diachos eu aprendi que scooter tinha que ser tratado com pronomes masculinos. A resposta: não sei. Desde que comecei a ler sobre motos - e olha que isso foi nos tempos da internet discada, sempre foi assim. Scooter é O scooter, moto é A moto. Nunca questionei, nunca problematizei, só repeti um padrão.


E isso é grave. Quando ficamos nostálgicos dos tempos que “não tinha mimimi”, “homem não chora” ou “bom era quando a mulherada ficava na cozinha”, estamos só repetindo um padrão opressivo que nos foi ensinado por uma geração anterior, que não tinha informação, não pensava nesse tipo de assunto, não queria lidar com “o outro”.


Pensem assim: seus pais e avós se mataram de trabalhar para que você tivesse uma condição melhor de vida que a deles. Só que isso não quer dizer apenas uma condição material melhor, significa também nos tornarmos pessoas melhores. Pessoas que se importam mais com os outros, que incluem o próximo, pessoas mais humanas no final das contas.


Não tem muito tempo, lia eu uma resenha de renomado articulista do setor motociclístico a respeito de um Honda PCX. Me deu raiva só de lembrar que estava escrito: “automático e com assento baixo, o PCX é ideal para o público feminino”. E aí irmão, 2020 e você tá falando que mulher não sabe dirigir? Meu pai e a minha mãe têm habilitação para dirigir ônibus. Minha mãe passou no teste de primeira, meu pai repetiu. E aí?


Essas coisas são sorrateiras, parecem pequenas, mas podem ter impactos grandes. Dizem “scooter é coisa de mulher”. Eu digo que scooter é de um extremo caralho de legal, muito mais práticos e, dentro de seu propósito, fazem muito sentido. Vocês que querem pagar de piloto esfregando cromo de custom na cara dos outros porque, no fundo, são tão vazios por dentro que precisam arranjar um jeito de se sentirem melhores que os outros. Pensem nisso.


E nem falem dessa história de “pilotar”. Meu deus, que saco é isso. Tive brigas homéricas em seções de comentários porque escrevi “dirigir moto”. Veio o mar de “aaaaaaah, moto se pilota, não se dirige”. Ah, pessoa, vai se lascar que eu tô ligado que se eu for até aí olhar o teu pneu, sua banda de rodagem tá gasta só no meio. Piloto é quem compete profissionalmente. De resto é motorista.


Então ficamos presos nessas picuinhas, afastamos um monte de pessoas que também gostam, ou podem passar a gostar de moto, por não se encaixarem nesse perfil de motoqueiro babaca malvadão, bem Jesus Numa Moto ouvindo Born To Be Wild. Referência que só o Saulo Mazagão vai entender. Depois ficamos chorando as pitangas que a paixão pelo motociclismo está morrendo. Não está morrendo, vocês que estão matando ela.


*vocês é uma generalização tá pessoal? Sei que o trabalho do pessoal do Motorama é de valor inestimável para agregarmos mais diversidade ao motociclismo, dando espaço para todos os tipos de motoristas e motos. Muitos já podem estar fazendo algo a respeito nesse sentido, aos quais agradeço à compreensão e espero terem entendido que esse texto não engloba todas as esferas do setor de duas rodas.


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