Aquela vez que eu andei em 6 motos em um mês

Atualizado: Mar 5


Altas motos

É, caros leitores, bem difícil manter um ritmo de escrita quando todo o resto está acontecendo, tipo a vida saca? Ainda mais quando não recebo para estar aqui (me paga Guigo!). Mas eu consegui uma façanha digna de nota: andei em seis motos no período de 30 dias. Três delas para trabalho, uma porque era minha e as outras duas para complementar o trabalho, vai fazer sentido lá na frente.


Royal Enfield Bullet 500



Minha Bullet suja

Certa vez me contaram que no primeiro ano da Royal no Brasil, importaram apenas 95 Bullets como a minha. Fiquei meio mal de ver a minha na garagem suja de barro há 4 meses e suando óleo pela junta do cabeçote. Ainda preciso de pneu traseiro novo e fazer a revisão de 21 mil km, meio cara. Mas estou rodando bem pouco com ela.



última viagem que fiz foi pra visitar meus pais em Itu num acampamento em que estavam com sua Kombi motorhome feita em casa durante a pandemia. Daí o barro desde novembro. Trabalho de casa desde 2019 e minha esposa também, desde o ano passado. Não dá pra viajar na pandemia e minha Bullet vai ficar lá largada.


Fiz alguns rolês curtos com ela, só pra não deixar o pneu quadrado. Instalei uma antena corta-pipa e um suporte de celular bom com tomada USB, como se fosse pro Atacama amanhã. No entanto, minha esposa, única pessoa que me põe juízo na cabeça, me propôs uma nova viagem.



Não seria tão épico quanto o rolê São Paulo-Brasília-São Paulo sem paradas que fiz com a Bullet, mas, em tempos de pandemia, é o famoso “é o que tem pra hoje”. Doravante, convoco aqui Guigo Pinheiro, Hugo Renault e Saulo Mazagão para um épico Motorama Vlogs em Três Lagoas (MS) em algum momento de maio. Cobrem eles.


Entre Lander e XRE300, por que não uma Himalayan?



Enquanto passava pelo marasmo de não ter o que fazer com a minha Bullet, o pessoal da Royal me ligou e perguntou “Ow, não quer andar na Himalayan nova não?”. Me banquei de difícil, fiquei de ver minha agenda, mas no fundo estava empolgado. Os caras da Royal mexeram um pouco na moto para a linha 2021 e, pelo menos nos sete grupos de proprietários de motos da marca que sigo, as reclamações tinham parado. A pauta estava pronta: “está na hora de perdoar a Himalayan?”.


Pronto, tinha uma Himalayan 2021 por uma semana. Fun Fact: quando fui buscar, ia pegar uma preta e vermelha, linda demais. Claramente ela estava sem bateria, fiquei com uma azul e branca. Entre os destaques da linha 2021 (viram como eu sei escrever que nem jornalista sério?), estão descanso lateral para a moto deitar mais, aquela grade do lado do tanque está menor pra você não bater o joelho nela, reforçaram o suporte do bagageiro e você pode agora desligar o ABS traseiro e fingir que está no Rali dos Sertões enquanto estiver indo na padaria.



Parece capa de vídeo do Rodolfinho da Z, mas fui eu que fiz

Segundas impressões podem acontecer. Andei na Himalayan quando lançou, depois vieram os problemas e eu deixei de lado. Agora, numa segunda sentada (olha a maldade), posso dizer sem medo que, não tivesse eu a Bullet e precisasse de uma moto só, seria ela. E já conto porque cheguei nessa conclusão.


Eu tinha esquecido como a Himalayan é magrela e esterça bastante, parece uma DT 180 de largura. Dá pra fazer uns corredores cabulosos com ela sem medo de ser feliz. Como o big single dela continua o mesmo (411 cm³, 25 cv, 3,26 kgfm e câmbio de cinco marchas), nem atrapalha os motoboys. A suspensão confesso que achei meio firme, na pegada da Lander 250, e tentaram compensar com um banco molenga. Isso eu mudaria, banco mole me faz ficar reposicionando o popô toda hora.


De resto, câmbio justo, fácil de tocar, aguenta qualquer parada. Ótima para ser sua única moto. Coloquei do lado da XRE 300 do meu pai, a Himalayan ficou parecendo uma Bros 125. Andei na XRE do meu pai, ele andou na Himalayan. Como ele bem resumiu, a XRE anda mais em alta, a Himalayan tem mais torque. Quis o destino que, na mesma semana, um tio meu que tem uma Ténéré 250 passasse em casa para dar uma volta na Royal, cogitando trocar de moto. Andei na Yamaha também.


Então eu posso meio que responder à pergunta: XRE, Lander ou Himalayan, qual é a melhor 0km? Lembrando que me recuso a fazer a errônea comparação com a BMW G310GS que muitos influencers fizeram. A BM tem menos motor e é mais cara. Entre as três consideradas, a XRE ganha em conforto (suspensão mole) e desempenho na estrada, porque é a única que segura 120 km/h com um pouco de fôlego sobrando.


A Ténéré/Lander, mesmo motor, segundo o próprio dono “tá a 120 no limite”. É até mais firme que a Himalayan que, na estrada, segura 120 por hora com um pouquinho de folga, mais que a Yamaha, menos que a Honda. Só que a Royal tem o para-brisa né amores? Baita adianto nas viagens. E na cidade é tão ágil quanto uma Bros fazendo uns 22 km/l, o que tá ótimo pro tamanho do motor.


Então, num cenário onde XRE e Lander são mais baratas no papel, mas acabam mais caras por conta de frete e do ICMS se você é um coitado de um paulista, a Himalayan é mais um caso de sucesso da Royal onde você recebe exatamente o que você paga. Fora o visual de XL 250 que eu, particularmente, gosto.


Honda ADV: cara, mas boa



Vou deixar aqui nesse link o que eu escrevi sobre o Honda ADV, vou resumir ao necessário. Na mesma semana em que eu estava de Himalayan, a Honda me ligou e falou “Ow, não quer andar no ADV novo não?”. Dessa vez não me fiz de difícil, pois o convite era para mim, não para algum outro veículo em que trabalho (são 7 hoje). Fruto dos meus vídeos malfeitos no YouTube, groselha no Instagram (me segue, clica aqui) e, creio eu, fato de eu ser colunista em um dos sites de moto mais proeminentes do país, a Revista Duas Rodas. Não, calma, Motorama.


Como vou descrever um scooter de 150 cm³ que custa quase R$ 18 mil? Com o bom e velho “tudo está caro hoje”, claro! Imaginem o PCX, agora coloquem umas carenagens mais inspiradas, uns pneus bons (sério, baita pneu no ADV) e suspensões de longo curso. É isso.



Odeio andar na terra, mas tenho provas de que fiz isso com o ADV

Vou falar pouco também porque o teste-drive foi de menos de 200 km, o que chamo aqui em casa de “ir na padaria e voltar”. Mas, onde andei, a bixinha surpreendeu. Esperta de arrancada, freia com confiança, os pneus agarram bem no asfalto e na terra e, em termos de scooter, tem a melhor suspensão que já andei. Só de amortecedor e roda e já vale os R$ 3,5 mil a mais em cima de um PCX. Mas ela também estica até uns 100 km/h numa boa e, pra mim, que odeio andar na terra, não foi uma experiência traumática. Ela bate seco no fim de curso? Sim, mas boa sorte achando um scooter melhor que não seja o X-ADV de R$ 70 mil.


E a Honda não está de olho em gente como nós, que respira moto e tenta sem sucesso fazer uma CB400 parar de vazar óleo (oi Guigo!). Eles estão de olho em gente que tem um pouco mais de grana e não tem moto, nem sabe o que é direito. Gente que vai olhar um scooter bonito, formoso, bem feito e confortável e nem vai perguntar a cilindrada do motor, mas vai ser melhor que andar de ônibus ou pegar trânsito.


Vai dar certo? Já deu. Aqui em São Paulo eu já vi várias rodando pouco tempo depois de lançar e no meio de uma pandemia que deixou a produção lenta. Agora tô criando coragem pra ligar na Honda e pedir uma emprestada por mais tempo, para ver se foi só uma boa impressão e usar de verdade no dia-a-dia


Meu problema com a Interceptor


Caso você já me conheça, eu tenho um problema com a Royal Enfield Interceptor. É aquela moto que te faz entrar em um financiamento, sabe? E olha que eu abomino a instituição do financiamento no Brasil. Isso desde que lançaram, há alguns anos, e culminou nesse vídeo aqui embaixo, quando eu vi elas de perto pela primeira vez.





Propositalmente, mantive-me longe das Interceptor. Não sabia se ia andar em uma e querer comprar, ou se ia andar e me decepcionar. O mistério era gostoso. Por sorte, quando fui buscar a Himalayan, dei uma de brasileiro: vi as Interceptor dando sopa no estacionamento e perguntei se podia pegar uma quando devolvesse a outra. Para meu espanto, colou e peguei a Baker Express, que chamei de “latinha de Amstel” (se beber, não dirija).


Essa vocês já estão cansados de saber, 648 cm³, seis marchas, comando simples no cabeçote, radiador de óleo, seis marchas. Potência? Torque? Mais do que você precisa, se você é um contador tarado por número, vá ver isso no Google. O que vou descrever agora é uma história de amor e ódio.



Sentei na Interceptor. De cara a posição me incomodou. Eu falo que a Intruder 125, minha primeira moto, estragou-me para as demais. Qualquer coisa que me faça pilotar fora da posição “cadeirinha” igual minha Bullet me deixa desconfortável. Na prática, seu peso fica em cima do punho e incomoda na cidade.


Saí, reparei que o velocímetro fica meio enterrado, longe da vista e com números pequenos. Dentro da minha cabeça já estava pensando “graças a (divindade de sua preferência), não vou ter que comprar outra moto”. Errado estava eu? Errado estava eu e precisei só de um camarada do iFood passando por mim como se Fazer 150 fosse moto para comprovar isso.


Vindo de Intruder e Bullet, motos frequentemente subjugadas pela classe motoboylísitca por parecerem lentas, criam um instinto no piloto de superação. Nas mãos de quem sabe tocar, a Bullet acompanha moto maior e mais moderna. Enfim, esqueci que a Interceptor não é uma Intruder e enrolei o cabo. Depois de atingir velocidades que não direi porque não sou besta, disse dentro do capacete “hehe, da hora”. Seguido de “ah não velho, porra”.


Será que eu ia ter que me lascar e comprar uma? Sério? Ainda incomodado com a posição de pilotagem, segui andando. Na cidade, esquenta um pouquinho, não esterça muito e, como disse, a posição faz as mãos doerem. Mas dá pra encarar no dia a dia. Fui para a estrada rapidinho porque precisava voltar ao trabalho. A 120 km/h, marca 5.500 rpm e tem sobra pra ir mais. Nesse ritmo, o vento te empurra para trás e parece um equilíbrio mágico onde sai o peso dos punhos, mas você não tem que segurar o guidão como se fosse cair para trás.


Por uma boa margem, pareceu a melhor Royal para estrada. E a suspensão é até melhor que a da Himalayan nos buracos, sei lá o que acontece. A Interceptor ainda tem algo típico das motos da marca, que é uma certa morosidade para mudar de direção. Acho ótimo isso, te faz pensar no que você está fazendo, exige que você se esforce e não deixa a moto arisca nas curvas.


Lembrem-se que a missão da Royal é ser a maior montadora do mundo entre 250 e 750 cilindradas. Aquele segmento que aparentemente nenhuma outra montadora quer, sabe? São produtos como a Interceptor que mostram que ela vai conseguir. Ela já foi a moto mais vendida da Inglaterra por alguns meses no ano passado e a fábrica já está para lançar uma Custom com a mesma plataforma 650. Sim, Custom, outro segmento que nenhuma montadora quer.



Já estava no segundo tanque da Interceptor e ainda não tinha cravado se queria uma ou não. Inventei desculpas pra sair com ela. Chamei meu pai pra andar, fui olhar um carro pra minha esposa a 40 km da minha casa sendo que eu nem ia comprar. Enfim. Nessa de ir ver o carro, reparei que estava perto das rodovias que ligam São Paulo (capital) ao litoral. Aí enchi o tanque de novo e fui, sem mais nem menos.


E foi isso que não entendi na hora. Por mais que ainda tivesse uma interrogação com a Interceptor, era piscar os olhos e eu tinha rodado 200 km sem motivo. E ainda chegava em casa pensando “hmmmm, preciso andar mais”. Rodei quase 600 km em 5 dias com ela e continuei dizendo que precisava andar mais. Tem moto melhor que uma que você passa três horas em cima dela, desce e quer andar mais?


Claro, tem lá suas coisinhas. A Interceptor precisa urgente de um banco melhor. Ele é bonito, mas depois de duas horas o popozão pediu arrego. Eu também investiria em um escape mais encorpado. O original é legal? Sim e ainda tem aquele assobio de admissão de CB400. Só que, vindo de uma Bullet, eu queria ouvir mais a moto. Não ter 2% das vibrações da Bullet é muito bem-vindo, porém.


Por 25 mil mais ou menos, não tem moto melhor. Podem chorar as pitangas aí falando de Ducati Scrambler, de Bonneville, de Sportster (que não existe mais 0km). Mas o custo-prazer x benefício é muito melhor na Interceptor. Por sorte, não tenho dinheiro pra comprar uma, mesmo sendo barata pelo que entrega.


Perda do poder de compra, desgoverno e como a gente vai acabar tudo com uma CB400


Como disse, tudo está caro hoje. Dólar disparou, demanda por moto cresceu, produção está lenta. Comprar uma moto 0km saiu dos planos de milhares de motociclistas. Só que toda vez que a moto nova fica cara, a usada acompanha. E de dois anos para cá, claramente sem nenhuma interferência do governo federal (lembrar de enfatizar ironia), nosso dinheiro vale menos. Ganhamos o mesmo e as coisas estão mais caras.


E daí? E daí que as fabricantes de moto já perceberam que, quem vai ter grana pra comprar motos novas é gente que já tem muita grana, não gente que quer uma CG. Então prevejo que as motos de entrada vão ficar caras e continuar simples e as montadoras vão investir em bigtrail que dá mais dinheiro. Não precisa nem imaginar, a Harley-Davidson já entrou nessa. Tirou todas as Sportster de linha no Brasil e vai investir na Pan America, que vai custar R$ 90 mil pra cima.


E onde entra a CB400/450 nessa história? Curiosamente, na manhã em que escrevi este texto, estava olhando motos que eu teria pelo preço de venda da minha Bullet. Opção tem várias. Honda Falcon, Honda CB500, Suzuki GS500, Yamaha Ténéré 600. Mas nada com um estilo que me agrade. Como gosto de pensar que vocês são meio entusiastas que nem eu. Olhando essa faixa de preço com um mínimo de estilo e conforto para pegar estrada, continuamos presos em Viraguinho 250 vendida a preço de ouro, Shadow e, claro, a lendária CB400/CB450. Se você tem um pouco mais de bufunfa para dar em uma moto 0km, só tem a Royal.


Vocês podem querer me bater nos comentários, chamar-me de petista, mas fato é que, em termos de motos bacanas, não só não evoluímos como as poucas opções que tínhamos ficaram caras demais. Eu não nunca vou dar R$ 90 mil em uma Harley, mesmo se tivesse dinheiro, mas essa vai ser a realidade se mantivermos o atual curso. Isso se sobrevivermos né, porque sempre dá pra morrer de uma doencinha aí que o governo ignora.


Pode parecer enviesado de alguém tem - e gosta - de Royal, mas ela é agora a única que atende ao nosso mercado de gente que gosta de moto. Esse ano vem a Meteor 350 e, se pá em 2022, a custom da Interceptor. E não vai ter ninguém pra competir com elas.


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