Aquela vez em que andei numa moto cara demais

Enquanto jornalista automotivo e aspirante de Jeremy Clarkson tupiniquim, estou acostumado aos faraônicos eventos de carros e motos de luxo que custam mais que a minha casa. Alguns inclusive conseguem superar até os valores que eu cobro por texto para o Motorama, o que explica o fato de o Guigo ainda não ter me pagado uma única vez sequer.



Prova de que andei na BMW R 1250 RT. Me segue no Insta: @thiago__moreno

Brincadeiras a parte, eu tenho o privilégio de andar em uma tênue linha entre veículos “sonho de consumo” e os pé-de-boi nosso de cada dia. E isso vale para motos também. Mês passado fui agraciado com uma BMW R 1250 RT deixada na porta da minha casa para passar o dia. Por sorte, me deram a versão mais simples, branca, que custa apenas R$ 165.750. Deus me livre pegar a completa de R$ 175.750.


Se vocês quiserem minha fria e calculista opinião jornalística embasada, cliquem aqui no link. Mas saibam que essa moto levou aos mais cruéis devaneios filosóficos que só o Saulo Mazagão iria entender. A principal pergunta era: “como que alguém gasta R$ 165 mil em uma moto?”. E o pior: não é nem a única moto nessa faixa, muito menos a mais cara.



Deve servir café, certeza

Não vou falar aqui que sou pobre. Sou privilegiadinho de classe média de merda na melhor das hipóteses, mas o veículo mais caro que comprei na minha vida foi a minha querida Bullet. R$ 18.900 e reclamei com o vendedor até eles me darem o emplacamento de graça. Por mais que eu tenha uma vida mais tranquila, o que não é verdade para a maioria das pessoas no Brasil, ainda sei o valor do meu dinheiro e quanto tive que ralar pra ter essa moto. Com carro sou pior ainda, não gasto mais que R$ 10 mil.


A moto em si, tesão. Mesmo motor da GS 1250, comando variável, rádio, bluetooth, aquecimento de bunda, suspensão adaptativa, piloto automático, enfim. Tenho certeza que ela serve até café, mas a BMW não conseguiu homologar a função por aqui porque o Detran deve ter encrencado com alguma coisa.



Mais uma foto bonitinha pra deixar o texto bacana

Rodei pouco mais de 140 km com ela, tiro curto. A impressão que ficou foi: 1) “Meu deus que treco gigante” e 2) “140 km? Parece que nem andei”. A moto é muito confortável para longas viagens. É ligar o piloto automático, ajustar o para-brisa (que é elétrico) e colocar uma música. Pronto, estou preparado para ir até Brasília cobrar meu soldo na sede do Motorama.


Mas a mágica do “nossenhora, que bagulho muito loko” começou a passar e, no lugar, veio a raiva. Raiva porque tenho minhas dúvidas se uma pessoa que gasta R$ 165 mil em uma moto é minimamente honesta. Depois que eu perguntei quais eram as concorrentes e ouvi “jet ski ou um cavalo”, peguei ranço.


Mesmo que a pessoa seja honesta, mesmo que ela realmente goste de moto a ponto de desembolsar tal quantia, há tanta coisa errada no país. É gente morrendo de fome de um lado, pessoas sem ter onde morar do outro. Enfim, consigo pensar diversas destinações melhores para R$ 165 mil que não sejam um agrado para o meu ego.


Sério mesmo, o comprador dessa BMW sabe quanto custa um pão? Já limpou a própria privada uma vez na vida? E me enveredei nesse caminho da “burguesia fede”. Do ponto de vista mais motocoletístico, sabia que são poucas coisas que a 1250 RT fazia a mais que uma GS. Infernos, uma Honda CB 500X vai fazer tudo isso por uma fração do preço. É tudo de moto que você precisa na vida, mesmo em longas viagens.


Mas depois veio a culpa. Não era justo criticar quem gastava tanto em uma moto. Não sei da história da pessoa, o quanto ela batalhou ou, mais importante, o quanto ela priorizou o sonho de ter uma moto de R$ 165 mil. Foto de gente em casa simples com Camaro na garagem tem de monte. Quem somos nós para julgar? Feio não é gastar R$ 165 mil, é não ter R$ 165, não é mesmo? Nós, tementes ao deus meritocrata-capitalista que não trabalhamos o suficiente.



Chique ela, né?

Nós somos aqueles que ficam sem ABS na moto porque não temos dinheiro para salvar as próprias vidas. Somos aqueles que vão virar para-choque de SUV prata na BR ao menor sinal de um tweet no celular. Nós perdemos emprego na pandemia, fomos fazer entrega, tivemos que nos virar. Eles lucraram mais do que nunca. Aliás, vocês sabiam que 2020 foi um ano recorde de vendas da Porsche no Brasil? Pois é, até setembro eles já tinham vendido 60% mais carros por aqui do que no ano passado inteiro. Sei de fonte fidedigna que BMW e MINI (mesma empresa) mal conseguem manter carros nas lojas de tanta procura. Crise? Que crise?


Mas é uma conversa que não vai levar a lugar nenhum. E se eu gostasse de não chegar a lugar nenhum, nem de moto andava. Vou optar por pensar que as pessoas que priorizam uma moto cara fizeram sacrifícios para chegar lá. Os que já tinham a grana no bolso, prefiro acreditar que são honestas e já ajudaram a sociedade de alguma forma.


E tem mais: dentro da lógica capitalista predatória que vivemos, a BMW R 1250 RT só é a primazia impecável de engenharia que é porque existem os que pagam por isso. Como já aconteceu no passado, tecnologia nova é cara, mas seu custo dilui com o tempo e as nossas motinhas baratas eventualmente a receberão. E tudo isso porque, em algum momento, o desenvolvimento foi bancado por quem tinha grana.


Mas sabem com é a real mesmo, ao menos na minha cabeça - que é um lugar estranho -? Eu numa Pop 100 de Coyote e alguém com uma moto de R$ 165 mil, uma vez na pista, vamos tomar a mesma chuva, cheirar a mesma essência de excremento das ruminantes. Teremos o mesmo medo das pessoas dirigindo com a cara no celular. Mesmo vindo de berço rico ou não, em cima da moto a gente se aproxima, conhecemos alguns dramas do outro, exercemos empatia. Se fica alguma lição disso tudo, é se conectar mais à realidade dos outros.


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