04. A imensidão azul em El Calafate

Depois de alcançar nosso destino principal e passar a noite no Ushuaia, no dia seguinte já estávamos de volta a Rio Gallegos, hospedados no mesmo hotel que tínhamos deixado na manhã do dia anterior.


O plano principal da viagem era chegar ao Ushuaia, mas eu não tinha um grande interesse na cidade em si. O foco era ir até lá e voltar, curtindo o caminho. Sendo assim, tínhamos partido de Rio Gallegos no dia anterior, chegado em Ushuaia, dormido e voltado para Rio Gallegos, já iniciando a viagem de volta.


Para os próximos dois dias, havia planejado os primeiros períodos mais tranquilos, como turistas. Um dia de apenas 305 quilômetros de estrada, de Rio Gallegos a El Calafate e em seguida teríamos nosso primeiro dia de descanso, curtindo um dia inteiro sem estrada. A ideia principal era visitarmos o Glacial Perito Moreno e curtir um pouco a cidade.


Mas a baixa quilometragem e o dia de folga tinham um outro motivo: fazer a troca de óleo das motos, que completaram 5000 quilômetros rodados quando voltamos para Rio Gallegos.

Durante o meu planejamento, pesquisei oficinas na região e, como o destino é muito visitado por motoqueiros em viagens pela Patagonia, encontrei alguns relatos e algumas postagens mencionando uma pequena oficina em El Calafate. Tinha o endereço dela salvo no meu GPS, mas se conseguíssemos fazer a manutenção em Rio Gallegos, poderíamos curtir El Calafate sem nenhuma preocupação e aproveitar muito mais nosso dia livre.


Por isso, na manhã que partiríamos para El Calafate, como não precisávamos acordar tão cedo, deixei o Nicholas dormindo e fui tentar encontrar uma oficina.


Não encontrei nada por perto, além de uma concessionária Renault, onde uma moça simpática se dispôs a ligar para algumas pessoas e descobriu o endereço de onde poderiam fazer o serviço. Era uma oficina na saída da cidade.


Na volta para o hotel, combinei com o Nicholas de tomarmos café e já partirmos com toda a bagagem, para passar no local e fazer a troca de óleo.


As informações que a moça passou estavam corretas, mas descobrimos que era uma loja de peças para moto e não uma oficina. Aparentemente faziam alguns serviços de instalação das peças que vendiam, incluíndo troca de óleo, mas, naquele dia e horário, o funcionário responsável pelos serviços não estava e não sabiam informar quando ele retornaria.


Sem saber se valeria à pena esperar, decidimos partir para El Calafate, chegar cedo e fazer a troca lá, como estava planejado inicialmente.


Caminho para El Calafate


Levando em consideração que vínhamos fazendo no mínimo 700 quilômetros por dia, o trecho foi muito tranquilo e rápido. Chegamos no hostel ainda no início da tarde e ficamos surpresos com o local. Eu esperava algo bem mais simples e rústico, mas o lugar era excelente. O que era um bom sinal, já que passaríamos mais tempo na cidade.


Hostel que ficamos em El Calafate


Já no check-in, perguntamos para a recepcionista se poderia nos ajudar a encontrar uma oficina para fazermos a troca de óleo das motos, porém ela não faziam ideia de onde poderíamos fazer o serviço. Ela conhecia uma loja de lubrificantes bem próxima do hostel e achava que lá poderiam ajudar. Descreveu uma casa amarela e deu as orientações, mas acabamos não encontrando o lugar e ficamos perdidos.


Resolvi parar e ativar o GPS para chegar na oficina que os outros motoqueiros tinham utilizado. Encontramos facilmente o lugar, mas me surpreendi ao descobrir que era apenas uma pequena garagem, muito bagunçada, com motos desmanchadas e peças espalhadas por todos os cantos.

Oficina em que trocamos o óleo das motos


Fomos recebidos por um rapaz muito simpático, que garantiu que conseguiria fazer o serviço. Fiquei aliviado por termos já encontrado a solução, mas nem podia imaginar que não seria tão simples assim.


O rapaz começou a afastar algumas motos e começamos a arrumar espaço para colocar a GS em uma posição adequada para começar o serviço.


Assim que a moto estava no lugar, o primeiro problema apareceu.


— Posso ver o óleo? — pediu o rapaz.


Eu olhei para o Nicholas e depois para o rapaz.


— Não temos o óleo. Você não tem óleo aqui?


— Não. Somos só uma oficina — disse o rapaz sorrindo.


Para mim não fazia sentido eles não terem o óleo e tentei confirmar se eu tinha entendido direito o que ele estava me dizendo. Ele explicou que teríamos que comprar o óleo em uma loja especializada e, quando passou as direções para encontrar o lugar, percebi que era a mesma casa amarela que a recepcionista do hostel tinha indicado.


Deixei o Nicholas na oficina, acompanhando a retirada do óleo da GS, e fui com a NC comprar o óleo.


Admito que também não tinha quase nenhum conhecimento sobre óleo, simplesmente por nunca ter que me preocupar em escolher tipos de óleo quando levo a moto para revisão. Então, comprei o que foi recomendado pelo vendedor.


Quando voltei, parecia que as coisas seriam finalizadas sem problemas, mas descobri que sempre é muito cedo para pensar nisso. Principalmente quando outros problemas relacionados à minha falta de experiência e conhecimento podem surgir.


— E o filtro, você comprou? — perguntou o rapaz da oficina.


— Eu não sabia que precisava — fui honesto em responder. O rapaz deve ter pensado: “como esse cara resolveu vir do Brasil até aqui, se não sabe que precisa trocar o filtro quando se troca o óleo.”


— Sempre é bom trocar o filtro, quando tira o óleo sujo e coloca o limpo — disse ele.


Voltei na casa amarela, mas descobri que eles não vendiam filtros para motos. O dono da loja me indicou uma oficina próxima, que teria filtros para motos.


Quando cheguei na oficina recomendada, me surpreendi completamente. Era um galpão grande, muito bem organizado e limpo, com várias motos de trilha, entre outros modelos maiores. Em uma prateleira, estavam várias caixas de filtros, muito bem organizadas, junto com galões de óleo, específicos para moto. Um rapaz bem simpático, que deveria ter apenas 18 anos, me recebeu com um sorriso largo. Na hora pensei no azar que tivemos ao não encontrar a casa amarela quando a moça do hostel nos indicou. A informação do dono nos levaria a fazer o serviço com esse rapaz, nessa oficina bem mais organizada e mais profissional, com tudo que precisávamos em um único local.


De qualquer forma, o rapaz poderia me vender o filtro e tudo daria certo e ficaria bem.


Porém, apesar de saber qual era o modelo usado na GS, ele não tinha disponível no momento. Tentou me explicar como chegar a uma loja de peças para motos que segundo ele ficava a uns dois quilômetros dali, mas me pareceu muito complicado entender as direções que ele estava me dando. E como eu estava com a NC, não tinha a opção de usar o GPS.


O rapaz nem tentou perder mais tempo me explicando. Pediu para esperar um pouco. Movimentou algumas motos que estavam no galpão, retirando uma pequena moto de trilha do meio das outras e falou para seguí-lo. Ele me guiaria até a loja.


Acompanhei o rapaz até a loja, onde ele falou com os vendedores, explicou o modelo, mas também não tinham a peça em estoque. Na saída, perguntei como faria para resolver o problema. Ele disse para apenas reutilizar o mesmo filtro. Não era o mais indicado, mas não iria ter problema algum na viagem. Segundo ele, já cansou de fazer isso por conta da falta da variedade de peças na região e a quantidade de modelos diferentes de motos que passam por ali.


Ao voltar para a pequena oficina, certo de que não teria mais problemas, descobri que mais uma vez eu estava enganado.


O rapaz já tinha trocado o óleo da GS, quando outro homem, que parecia mais experiente, chegou à oficina. Olhou o galão vazio e perguntou se tínhamos usado aquele óleo.

A pergunta e o tom em que foi feita já indicavam que algo estava errado.


Os dois homens conversaram por um tempo, em uma velocidade e em um volume que não me permitiu entender o que diziam, até que o homem virou para mim e disse que aquele óleo não era o certo.


Por minha completa ignorância, já imaginei que aquilo estragaria o motor ou prejudicaria de alguma forma toda a viagem, mas em seguida ele explicou que, como aquele óleo não era sintético, não poderíamos rodar tanto com ele. Precisaríamos trocar novamente nos próximos dois ou três mil quilômetros. Ou seja, seríamos obrigados a passar novamente por todo aquele processo antes de retornar ao Brasil.


A vantagem é que, pelos meus planos, nessa próxima troca estaríamos já na região de Buenos Aires, onde seria bem mais fácil encontrar um local apropriado, e isso fez com que eu aceitasse aquela notícia com mais tranquilidade.


Era impressionante como o pequeno erro de não encontrar a loja de lubrificantes tinha desencadeado uma série de outros erros. Além disso, a falta de conhecimento sobre as questões básicas de manutenção de motos prejudicava muito minhas decisões. Nunca me importei em saber um pouco mais sobre as coisas básicas. Sempre cheguei nas oficinas mecânicas que faziam a manutenção das minha motos e pedia para trocar o óleo, sem parar para pensar sobre aquilo. O óleo já estava incluso no processo, não sabia de onde vinha e qual o tipo utilizado, eu apenas confiava que era o indicado para aquela moto.


A minha falta de experiência nos fez perder tempo, sem resolver o problema de forma completa. Para a NC, conseguimos fazer a substituição do óleo, que exigiu mais um retorno meu à casa amarela, mas também ficou com o filtro velho.


Voltamos para o hostel já quase no final da tarde, mas, pelo menos, tínhamos resolvido a questão do óleo pelos próximos 3000 quilômetros. Não era o ideal, mas poderíamos descansar um pouco e curtir a cidade de El Calafate.


Esse era um dos destinos mais esperados da viagem. Desde que comecei a acompanhar relatos de viajantes de moto pela América do Sul, as imagens dos glaciais me impressionavam. Aquela imensidão de gelo, tão diferente do nosso cenário brasileiro, a poucos metros de distância.


Depois de deixar as motos no hostel, conseguimos trocar dinheiro, contratar um passeio que faríamos no dia seguinte, comer, comprar um lanche para levar no passeio e, finalmente, relaxar um pouco mais. Aquele era para ter sido um dia tranquilo, de quilometragem baixa, mas que acabou se transformando em algo bem cansativo.


No dia seguinte, partimos cedo para a visita ao Parque do Glacial Perito Moreno. Tínhamos negociado o passeio completo, que incluía a ida de barco até a outra margem do rio e uma caminhada sobre o glacial, usando grampo de metal preso aos pés.


Como chegamos antes do horário do barco, decidimos ir ao mirante, que é um enorme deck cheio de escadas e caminhos levando a diferentes pontos da encosta, onde podemos ver de perto a face principal do Glacial Perito Moreno.


Fomos escolhendo caminhos indo na direção que parecia estar mais de frente para o imenso bloco gelo e, quando finalmente chegamos, fomos surpreendidos por uma visão mágica.



A poucos metros da encosta, o paredão de gelo azul é algo realmente incrível, parecendo um cenário de ficção científica. Os estalos que o gelo faz também impressionam. Fiquei um tempo contemplando aquilo, ainda sem acreditar que estava realizando aquele velho sonho. Pensei em todos aqueles viajantes que eu acompanhava pela internet e via os registros daquele mesmo local. Eu estava ali também. E o mais incrível era estar naquele local com o meu filho. Talvez ele não tivesse a mesma relação com aquele cenário, mas de qualquer forma era uma experiência incrível termos chegado àquele ponto juntos.


Naquele momento, também estavam todas as motos que tive, todos os problemas que me fizeram abandonar, diversas vezes, o sonho de chegar até ali.


Uma conquista ganha um valor maior quando você soma todas as dificuldades que te fizeram deixar de atingi-la em outras oportunidades. Por isso, talvez aquilo tudo tivesse um peso muito maior para mim do que para o meu filho, mas percebi que o Nicholas também estava curtindo aquele momento e isso deixou tudo ainda melhor. Tive a chance de proporcionar aquela experiência, depois do que ele passou no Atacama. Naquele momento, também senti que eu estava me redimindo de alguma forma.


A visão do Perito Moreno, junto com o Nicholas, foi o maior símbolo daquela conquista. Uma experiência perfeita, sem grandes surpresas, sem acidentes, apenas os percalços naturais de uma viagem de moto pela América do Sul.


Deixamos o mirante do glacial e fomos até o local de saída dos barcos para o passeio.

Travessia de barco até o Glacial

Ao chegarmos na outra margem, dividiram o grupo em dois, de acordo com as línguas em que seriam dadas as instruções: espanhol e inglês. Seguimos com o nosso grupo para uma caminhada até a beirada do gelo. No meio do percurso, nossa guia explicou que aquele glacial era formado pelo gelo que vinha dos Andes e aquilo era praticamente uma correnteza de gelo, de enormes proporções, que vai arrastando coisas por onde passa, mas com progressos milimétricos. Aquele gelo estava ali há muito tempo, avançando de forma imperceptível.

Caminhada até o limite do Glacial


Caminhamos mais um pouco até outro ponto de apoio, onde são colocados os grampos de metais no pés. Os guias amarram uma base de ferro com tiras de couro, tentando deixar o mais firme possível, mas, ao andar, a sensação é muito estranha. Porém, assim que começamos a caminhar sobre o Glacial, o encanto daquele lugar fez esquecer os metais no pé e parecer que estávamos andando em um campo mágico. Algo que foge de toda realidade vivida. Caminha-se sobre um gelo branco azulado, como se fosse um mar congelado. Ao mesmo tempo, vemos água passar em certos trechos, escavando pequenos dutos, buracos e crateras abaixo de nós. Uma experiência única e impressionante.


Colocação dos grampos para caminhar sobre o gelo


É incrível observar que, no nosso planeta, existem coisas fantásticas acontecendo a todo momento. Tudo em um equilíbrio gigantesco e minúsculo ao mesmo tempo. Observar in loco algum desses fenômenos mexe com a nossa percepção de mundo. Somos insignificantes perante a grandeza disso tudo.


A todo instante, eu e o Nicholas parávamos para tirar fotos, tentando registrar o que estávamos vivendo, tentando retratar aquela grandiosidade, mas, quando estamos diante de algo desse tipo, a cada nova foto percebemos que é impossível fazer um registro perfeito. Já reparou como as pessoas tiram mais fotos quando estão diante desse tipo de paisagens? É porque todos tentamos registrar a imensidão do que estamos percebendo, não apenas de tamanho, mas da nossa insignificância perante a vida como um todo, só que nenhuma foto consegue ser tão fiel, ainda mais com os poucos recursos de uma câmera de celular. Acredito que esse seja o poder dos grandes fotógrafos, porque eu não consegui, em nenhuma foto que tirei, registrar de forma completa aquela experiência. Tirei muitas fotos do meu filho, sobre o gelo, porque queria guardar aquele momento, mas o que eu senti de verdade, não teve como. Uma sensação de que não estamos conectados com as coisas da forma correta, ou da forma de que deveríamos estar, pelo menos. Tudo que passamos até aquele momento da viagem, tinha sido pequeno demais. Mesmo as dificuldades desde o início, com a troca de dinheiro, o frio em certos trechos, a troca de óleo. Aquilo estava valendo a pena porque estávamos tendo a chance de presenciar algo fantástico e inédito para nós, mas que estava acontecendo independente de tudo, como sempre esteve.


Aquele glacial existe há séculos e continua existindo todos os dias, mas só algumas pessoas têm a experiência de pisar e caminhar sobre ele.


O mesmo valia para a nossa viagem.


Estávamos passando por um caminho que alguns