12. Para onde voltamos quando viajamos de moto

Deixar Buenos Aires foi estranho.


Ainda teríamos dois dias de viagem até chegar em casa, mas aquela saída significava o retorno para o Brasil e havia já uma sensação de missão cumprida, mesmo com muitos quilômetros a serem rodados.


Acordamos bem cedo para poder fazer nosso último dia de Argentina com tranquilidade. Seria um trecho bem longo até chegarmos novamente a Santo Antônio das Missões. Teríamos a passagem na fronteira, que não tinha sido problemática na ida e esperávamos que também fosse tranquila na volta, mas de qualquer forma essas coisas sempre quebram um pouco o ritmo. Outro complicador nesse penúltimo dia seria a mudança de fuso, que nos tiraria uma hora assim que entrássemos no Brasil. O adiantar do relógio não mudaria o tempo de estrada e nem a quantidade de luz do dia, mas queríamos fazer a viagem render para diminuir o efeito psicológico da perda dessa uma hora.

O primeiro trecho foi tranquilo com paradas rápidas e sem muito problema, a não ser uma forte chuva que nos obrigou a fazer uma espera bem maior do que a prevista em um posto YPF em que abastecemos.


Essa chuva nos fez lembrar da volta do Atacama, quando, também no percurso de retorno para o Brasil, de Corrientes para Pato Branco, pegamos uma tempestade de verão e fizemos um dos piores trechos de todas as viagens. Chegamos em Dionísio Cerqueira já quase noite e tomei a decisão de seguir viagem, completando os cento e poucos quilômetros até Pato Branco embaixo de chuva, cansados e já no escuro. Foi uma das decisões que eu mais me arrependi de ter tomado, porque expus nós dois a um risco totalmente desnecessário.


Devido a essa experiência anterior, comecei a fazer planos caso a chuva piorasse, pensando em locais que poderíamos pernoitar e esperar o tempo melhorar. Mas logo que retomamos a estrada a chuva parou e conseguimos fazer uma chegada bem tranquila na fronteira. Aproveitamos para dar uma descansada, ir ao banheiro e trocar o dinheiro argentino que havia sobrado.


Ainda estava dia claro e conseguimos completar os noventa quilômetros que faltavam até Santo Antônio das Missões com bastante tranquilidade.


Como o último trecho no Brasil seria extenso e a estrada não muito boa, sabíamos que o dia seguinte seria longo na estrada. Para evitar chegar muito tarde, tomamos algumas decisões para ganhar tempo.


Optamos por parar no posto quando chegássemos em Santo Antônio das Missões, para deixar as motos já abastecidas para a saída no dia seguinte, e combinamos de não esperar o café da manhã do hotel, que só era servido às sete horas. Planejamos comer alguma coisa quando parássemos para o primeiro abastecimento, quando ja estaríamos com uns duzentos quilômetros rodados. Já tínhamos seguido esse plano em outras situações na viagem. Era uma boa estratégia para melhorar o ritmo e também o fator psicológico, principalmente quando precisávamos enfrentar dias mais longos, pois assim já começamos rendendo mais. Até o meio dia já rodamos metade ou um pouco mais do programado e nos sentimos mais motivados para a parte da tarde, sabendo que temos mais folga para descansar ou simplesmente chegar mais cedo no destino.


Nesse último trecho da viagem, já em território brasileiro, experimentamos uma mistura de sentimentos. Depois de vários dias nos virando com língua e cultura diferentes, sem saber ao certo o que podemos fazer e com quem podemos contar, estar de volta ao nosso país nos dá uma sensação de poder e tranquilidade. Sabemos as atitudes que podemos tomar, quais são as regras de certos ambientes, além de contar com uma comunicação melhor, caso precise ligar para alguém, pedir ajuda, entre outras coisas. Temos mais tranquilidade ao entender a lógica das coisas, inclusive para saber onde não é seguro parar e saber evitar situações de perigo. Mesmo sabendo que as estradas do Brasil não são tão seguras, estar no nosso próprio território facilita uma série de coisas e sempre me pego pensando que deveríamos viajar mais pelo Brasil. Tem tanto lugar que não conhecemos no nosso próprio país, com distâncias e percursos tão desafiadores quanto qualquer viagem para os países da América Latina. Rodar dentro do Brasil com certeza é uma aventura. Ir para o nordeste ou para o norte do país. Mais para o centro temos o Jalapão, a Estrada Real, o Pantanal. São lugares que merecem também uma visita.


Por outro lado, o último trecho traz uma sensação estranha, justamente por estarmos encerrando a viagem. Um sentimento de saber que no próximo dia não teremos mais que acordar cedo, embalar tudo de novo e pegar a estrada. Não teremos essa missão diária de seguir em frente, sem saber ao certo o rumo, mas saber que precisamos partir.


Viajar de moto é algo realmente mágico. A constância e a inconstância das coisas são desafios para o corpo e para a mente, mas você não tem muito com quem dividir essas impressões. Não converso muito sobre isso com as pessoas porque eu percebo que na maioria dos casos, não entendem a lógica por trás desse propósito meio ilógico de se fazer uma viagem de moto.


Acredito que seja algo parecido com o que os corredores de maratona ou de ultra-maratona vivenciam. Não é possível explicar tudo que sentem quando terminam uma prova. Cada quilômetro percorrido deve produzir desafios mentais que encheriam um capítulo de um livro, mas quando terminam, fica difícil colocar em palavras.


Nos últimos quilômetros de nossa viagem, já na região metropolitana de Curitiba, quando paramos em um semáforo, eu olhei para o Nicholas na moto ao meu lado e fui tomado por uma emoção inexplicável. Era incrível saber que tínhamos conseguido, mas isso era só uma parte do que eu estava sentindo. Saber que vivi e senti tudo aquilo com ele, era ainda mais impressionante.


Eu recomendo, para quem gosta de pegar a estrada de moto, que faça uma viagem mais longa, para sentir um pouco de tudo isso.


Muitas vezes me pego recordando certos momentos dessas duas viagens. São detalhes pequenos, experiências meio banais, mas foram experiências que deixaram impressões fortes e me marcaram de uma forma única.


Abro o mapa e vejo uma pequena linha, representando uma estrada perdida, no meio da Patagônia e lembro que aquela estrada é real, ela existe, está lá para quem quiser passar por ela.


Eu e meu filho estivemos lá.


Fomos e voltamos de moto.


Voltamos outros, mas voltamos.

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