11. Dificuldades e reflexões em Buenos Aires

Quando passamos dias viajando por pequenas cidades, em lugares tão distantes e isolados quanto a Patagônia e a Terra do Fogo, acabamos esquecendo que em grandes centros a dinâmica do trânsito é outra.


A medida que fomos nos aproximando de Buenos Aires fui sentindo a diferença das avenidas largas, com quatro ou cinco pistas repletas de carros. Eu precisava estar mais atento às mudanças de pistas de acordo com as saídas indicadas pelo GPS e, durante esse processo, manter-me visível para o Nicholas, para que ele continuasse a me acompanhar, afinal ele não sabia onde iríamos nos hospedar.


Foi então que, depois de quase dez mil quilômetros, me dei conta de um erro grave que cometi: eu simplesmente não compartilhei com o Nicholas as informações sobre a viagem.

“Se alguma coisa acontecer, com ele ou comigo, como ele poderá tomar providências?”


“Como ele fará para encontrar o hotel ou avisar alguém?”


Caso a gente se perdesse no trânsito confuso da entrada de Buenos Aires, sem contato imediato por celular, Nicholas não saberia para onde ir e o que fazer.


Comecei a ir mais devagar e ficar mais atento, ao mesmo tempo que refletia sobre meu erro. Na vontade de assumir toda responsabilidade e cuidar do meu filho, eu tinha criado uma situação que poderia causar um grande problema, caso nos perdêssemos um do outro.


Nós, pais, muitas vezes fazemos esse tipo de coisa sem pensar nas consequências. Queremos indicar o caminho a ser seguido, que até pode garantir que a experiência vá por um rumo certo e esperado, mas acaba não considerando os imprevistos. Se os filhos estão mais preparados para lidar com novos cenários, de forma independente, será ainda mais fácil se eles tiverem autonomia. Mas, no ímpeto de cuidar, tiramos essa liberdade deles.


Já estávamos indo devagar, mas uma obra nas imediações de Buenos Aires fez o GPS redefinir a rota e nos levar por um trecho ainda mais lento, com um grande congestionamento. Chegaríamos com meia hora de atraso em relação ao previsto, mas ainda dentro da janela de horário que eu tinha indicado para o homem do hotel.


Ao entrarmos em Buenos Aires, passamos por uma sucessão de quatro pedágios, que nos atrasaram um pouco mais, até que pegamos a saída em direção ao centro da cidade. Nosso hotel ficava próximo à avenida Corrientes, que leva ao Obelisco, um dos maiores pontos turísticos da cidade.


As ruas estavam tranquilas e logo chegamos ao endereço do hotel, que na verdade era uma casa grande, antiga, com a porta na calçada, sem lugar para parar as motos. Toquei a campainha para me certificar que tinha alguém nos esperando e, em seguida, fomos atendidos por um homem simpático, que logo quis saber detalhes sobre a viagem e as motos.


Enquanto contávamos sobre nosso itinerário e os dias na estrada, fomos retirando as bagagens.


Quando finalmente entramos, o homem nos explicou que era o proprietário do hotel. O imóvel pertencia à sua família e ele transformou em uma espécie de hostel, muito elegante e bonito, com vários pavimentos. O nosso quarto era um dos mais bem decorados, com um banheiro todo reformado, com peças modernas e um chuveiro muito bom.


Como o hotel não tinha recepção, o homem nos passou uma cópia da chave das portas, interna e externa, e a senha da fechadura eletrônica da porta principal. Ele era extremamente metódico e, por isso, não só mostrou os passos que deveríamos seguir e as chaves e a senha que precisaríamos usar, como também nos fez repetir o processo completo na frente dele para avaliar se tínhamos aprendido.


Nosso anfitrião tinha morado no Brasil por um tempo e orgulhava-se de falar português. Julgava-se fluente e até conhecia umas palavras mais específicas, mas para nós era difícil entendê-lo. Mesmo assim, conseguimos cumprir a tarefa das portas com sucesso.


Ele nos indicou um estacionamento para deixar as motos, passou a senha do wifi e nos levou ao nosso quarto após mais algumas explicações metódicas sobre o uso da cozinha e da área para refeições.


Já no quarto, começamos a nos organizar como sempre fazíamos. Conectei a internet enquanto tirava as roupas da bagagem, mas, ao ver as mensagens recebidas, uma delas me fez parar.


Era uma mensagem da mãe do Nicholas que dizia: “Assim que puder, me ligue.”


Aquilo era estranho, porque em nenhum momento da viagem ela tinha mandado mensagem para mim.


Estamos separados há alguns anos e temos uma boa relação, mas as trocas de mensagens são sempre para nos atualizarmos sobre alguma situação dos filhos. Como o Nicholas estava comigo, já pensei que algo pudesse ter acontecido com nossa filha, que estava com ela.

Eu comentei com o Nicholas sobre a mensagem e pedi para que ele verificasse se não tinha recebido alguma notícia. Mas ele não tinha recebido nada.


Respondi a mensagem, avisando que tínhamos acabado de chegar em Buenos Aires e ela respondeu em seguida, contando que o pai dela, avô do Nicholas, estava no hospital há alguns dias, mas naquela tarde os médicos pediram para chamar a família, pois não havia muita chance dele sobreviver.


Contou que naquela última semana o pai dela estava fazendo um trabalho no telhado de casa e caiu, batendo a cabeça. Um acidente doméstico, mas que tinha causado um traumatismo craniano.


Ele tinha sido internado e os médicos vinham tentando reverter o quadro, mas chegou a um ponto que não viam mais volta.


O acidente tinha acontecido há alguns dias, mas ela não quis falar nada para mim nem para o Nicholas, porque não queria nos preocupar durante a viagem. Não queria nos apressar ou fazer mudarmos nossos planos.


Mas com aquela notícia, senti que talvez tivéssemos mesmo que voltar antes e falei com ela sobre isso, apesar de que, o mais rápido que chegaríamos, seria em dois dias.


Ela comentou que não fazia muito sentido e a situação ainda estava incerta.


Pedi para que me avisasse assim que soubesse de alguma mudança no quadro e encerrei a conversa com a missão de dar a notícia para o Nicholas.


Contei para meu filho de forma direta e ele ficou surpreso e preocupado com a mãe. Passei todos os detalhes, mas disse que ainda iriam aguardar, pois poderia haver uma melhora.


Depois de comentarmos um pouco a situação, demoramos para desfazer as bagagens. Levamos um tempo para decidir o que faríamos no resto de dia. Precisávamos deixar as motos no estacionamento, comprar um adaptador de tomada e decidir um lugar para jantar, mas estávamos em um ritmo diferente dessa vez.


Nicholas passou algum tempo no celular, falando com a mãe. Eu tentava puxar assunto comentando sobre o ocorrido, mas ele estava concentrado na troca de mensagens e apenas respondia concordando ou comentando que estava falando sobre o mesmo assunto com a mãe dele.


Comecei a pensar na minha filha, que estava lá, acompanhando o sofrimento do avô e da família toda. A mãe tinha dito que ela chorou muito e estava bem abalada. Aquilo também me deixou triste. Queria estar perto, para poder abraçar minha filha e tentar reduzir um pouco o sofrimento que ela estava sentindo.


Pensei na possibilidade de saírmos no dia seguinte e retornar a Curitiba em dois dias. Eu tinha planejado mostrar um pouco de Buenos Aires para o Nicholas, mas com uma situação dessas, poderíamos deixar para uma próxima vez.


Porém, também não adiantava decidir nada naquele momento. Tínhamos que esperar para que as coisas se definissem melhor e ver se o Nicholas estava bem.


Depois de um tempo, ele largou o celular.


— Como você está se sentindo? — perguntei para o meu filho.


— É uma merda. Não tem muito o que fazer, a não ser esperar.


Não sabia como continuar o processo de chegada, mas precisava resolver as coisas.


— Temos que guardar as motos no estacionamento, mas se você preferir eu posso fazer isso sozinho.


— Não. Eu vou junto. E podemos já sair para comer alguma coisa. Eu estou com fome.


Senti que o Nicholas estava disposto a não deixar a notícia abalar demais o momento.


Deixamos as motos em um estacionamento e fomos dar uma volta pela região. O sol estava começando a se pôr, mas ainda assim conseguimos ver o Obelisco no final da avenida Corrientes. Caminhamos pela calçada, nos misturando a uma multidão. Era sábado à noite e o centro de Buenos Aires estava tomado por pessoas indo para algum lugar ou apenas passeando, procurando um restaurante ou um espetáculo. O trecho da avenida Corrientes em que estávamos é uma área cultural, repleta de teatros e restaurantes, além de pequenas livrarias e sebos. Apesar daquela confusão de pessoas e de toda a situação, me senti bem por estar alí. Fiquei feliz de estar com o Nicholas vendo tudo aquilo, mesmo que tomássemos a decisão de partir na manhã seguinte.


Ao voltar para o hotel e reconectar ao wifi, vi que não tinha recebido nenhuma notícia sobre o avô do Nicholas e achei que era um bom sinal.


Como no dia seguinte não teríamos que viajar e nem tínhamos programado nenhum passeio, seria a primeira vez que não teríamos que acordar em um horário específico. Combinamos de dormir até a hora que quiséssemos, para descansar bem, mas avisei ao Nicholas que caso eu acordasse muito cedo, por força do hábito, levantaria e sairia para dar uma volta.


Perdi o sono às quatro e meia da manhã.


Peguei o celular e vi a mensagem.


O avô do Nicholas tinha falecido.


Olhei para a cama ao lado e fiquei observando o Nicholas dormir tranquilo, sem ainda saber da morte do avô. Não sabia como ele reagiria. Só sabia que eu tinha que estar aberto para qualquer tipo de decisão. Se ele desejasse voltar para Curitiba, eu daria um jeito. Pensei na possibilidade de comprar uma passagem de avião para ele e usar os dois dias para despachar a Xre e seguir a viagem sozinho. Mas também pensei em despachar as duas e ir junto, porque eu queria terminar aquela viagem com ele, da forma que tivesse que ser.


Fiquei deitado na cama pensando e querendo que meu filho acordasse, mas ao mesmo tempo desejando que ele dormisse bastante para adiar a notícia.


Quando o dia começou a amanhecer, levantei para caminhar.


Segui pela avenida Corrientes, relembrando de toda nossa viagem até ali. Recordei a ida para o Atacama, onze meses antes, e a mãe do Nicholas dizendo que se algo acontecesse com ele, ela nunca me perdoaria. Refleti sobre toda a motivação que nos leva a pegar uma estrada de moto, com todo o risco que envolve, simplesmente para chegar a um ponto e voltar.


Ao mesmo tempo, fiquei pensando nas pessoas que ficam em casa por medo, por excesso de cuidado ou de planejamento.


Era inevitável pensar na contradição de tudo isso.


Enquanto o neto estava rodando mais de dez mil quilômetros em uma moto, o avô estava em casa, fazendo suas tarefas do dia a dia. Enquanto todos pensávamos nos riscos da nossa viagem, o avô do Nicholas subiu no telhado, como estava acostumado a fazer, e sofreu um acidente fatal.


A verdade é que nunca sabemos quando algo assim irá acontecer, independente do lugar e da hora. Pode acontecer em uma estrada da Patagônia, mas também pode acontecer no quintal da nossa casa. Deixar de fazer as coisas por medo, ou por fugirem do convencional, não significa que estamos nos protegendo.


Caminhei até o Obelisco, vendo jovens da idade do meu filho ainda encerrando a noite, bebendo, sentados na calçada ou entrando no Mc Donalds para um café ou lanche.


Pensei no Nicholas e na experiência que ele escolheu ter. Senti orgulho dele ter decidido enfrentar a estrada até o Ushuaia, mesmo depois de todos os problemas que tivemos na primeira viagem. De certa forma, me senti bem, fazendo minha parte, oferecendo confiança. Acredito que esse seja um dos papéis de ser pai: deixar claro para seu filho que ele pode confiar em você. Mostrar as oportunidades, mas dar a ele a liberdade de decidir se quer aproveitar ou não.


Tudo o que passamos foi uma grande lição. Por mais que eu quisesse cuidar e planejar, eu nunca consegui fazer isso plenamente. E está tudo bem.


Eu tentei nos proteger ao máximo e mesmo assim eu falhei, mas aprendi que não tem como se proteger de tudo. Em vários momentos, eu me culpei por não ter feito a coisa certa. Mas qual era o certo? Por mais que as coisas estejam sob um certo controle, não se pode controlar tudo. Por mais que tínhamos nos arriscado em certos momentos, foram decisões que nos deixaram mais experientes.


Trocar tudo isso pela segurança de ficar em casa e nunca experimentar o caminho, não significa que estaríamos correndo menos perigo.


Por um descuido, podemos não estar aqui amanhã. Então, o que fazemos hoje tem que valer a pena.


Voltei para o hotel com um misto de leveza e apreensão. Apesar de toda reflexão, dependia ainda da decisão de como o Nicholas gostaria de prosseguir. Eu não queria que ele pensasse que eu precisava continuar a viagem. Por mim, não teria problema desistir, mas se eu falasse sobre o que eu pensei, poderia parecer que eu estava querendo tirar a seriedade da situação e forçando ele a ver o lado positivo das coisas. Eu estava triste por ele ter que lidar com uma perda dessas. Não queria que ele sofresse de nenhuma forma, nem ao menos com uma notícia ruim.


Cheguei no quarto e ele estava acordado, vendo o celular. Eu podia imaginar que ele já sabia, mas perguntei e ele confirmou.


Falei que tinha conversado com a mãe dele e que ele poderia decidir o que fazer, se quisesse voltar o quanto antes para Curitiba, poderíamos encurtar a viagem ou ele poderia ir de avião.


Ele disse que não, que não fazia sentido. Não iria mudar nada.


No fundo, eu entendia, mas sei que não é tão fácil assim, então reforcei que ele poderia tomar aquela decisão. Ele confirmou que gostaria de seguir com os planos da viagem.

Ficamos deitados na cama por um tempo, em silêncio. Eu não sabia mais o que dizer e continuei pensando em como a gente tenta poupar os filhos, mas nem sempre temos sucesso.


Depois de um tempo, o Nicholas levantou e perguntou o que a gente iria fazer naquele dia.

Refiz com ele o percurso pela Avenida Corrientes, até o Obelisco. Depois seguimos em frente, caminhando, em direção à Florida e ao Puerto Madero. Seguimos para o lado sul, até o mercado de San Telmo que eu ainda não conhecia.




Na manhã de segunda, fomos primeiro trocar dinheiro e, em seguida, para a região da Recoleta, mas dessa vez compramos cartões do metrô para evitar o calor e o sol forte.

Na tarde do segundo dia, senti que o Nicholas estava cansado daqueles passeios. Mais uma vez percebi que eu estava conduzindo meu filho em uma viagem que não necessariamente era dele. Caminhando a pé por Buenos Aires, eu continuava agindo como na estrada, sendo o líder que define o caminho a seguir.


Pensei em como seria uma viagem que eu não tivesse esse poder de decisão. Imaginei uma próxima viagem onde eu deixaria ele planejar e liderar, mostrando um caminho que eu não conheço.


“Será que eu conseguiria, sabendo que ele tem bem menos experiência?”


“Se fosse outro motoqueiro, mesmo que eu não soubesse nada sobre a experiência de estrada e vivência dele, eu aceitaria a liderança, não aceitaria?”


“Por que, ele sendo meu filho, coloco essa hierarquia em primeiro plano, achando que eu é que tenho que indicar o caminho?


“Por que seguimos essa lógica de tomar decisões apenas por sermos pais, mesmo quando o filho já é um adulto?”


Naquele momento, o Nicholas já tinha passado por coisas na estrada que a maioria dos motoqueiros apenas sonham. Talvez tenha lhe faltado uma autonomia nas escolhas e um pouco de tomada de decisão, por culpa minha. Uma viagem em dupla não exige uma tomada de decisão unilateral, do líder. Pode ser uma decisão conjunta.


A medida que esse entendimento foi se consolidando, fui me dando conta de que eu tinha falhado mais uma vez. Não apenas em não observar o pneu durante a viagem, ou não ter trocado o pneu antes de partirmos. Apesar de nenhum acidente grave, eu falhei porque, mesmo querendo dar uma experiência incrível para o meu filho, acabei dando uma experiência limitada. Acabei, mais uma vez, dando uma experiência com base nas minhas expectativas e escolhas.


Pais não deveriam enxergar os filhos sempre como filhos, mas também como companheiros de uma jornada.


Naquele momento, percebi que ele não precisava seguir o que eu estava querendo fazer. Podíamos inverter os papéis.


Na tarde do último dia, Nicholas preferiu ficar no hotel, descansando, e eu saí para fazer compras, mas não consegui. Fiquei andando por Buenos Aires refletindo mais uma vez sobre tudo o que tinha acontecido.


O meu plano com essa viagem sempre foi dar uma experiência maior para o Nicholas, mas quem teve um grande aprendizado fui eu.


Como o carioca da Harley em Garayalde disse, é um sonho fazer uma viagem dessas, mas descobri que além de dar uma oportunidade para meu filho viver tudo isso, também tive a honra de viajar com ele. Poucos pais conseguem esse feito. E o mais importante foi ter a oportunidade de aprender sobre compartilhar os mome