10. Queda a caminho de Perito Moreno

Ao sairmos de El Calafate, depois do primeiro dia sem estrada, estávamos nos sentido leves e realizados. Tínhamos trocado o óleo das motos e, mesmo sabendo que precisaríamos fazer uma nova troca na GS, estávamos tranquilos, porque poderíamos fazer isso em Buenos Aires. Lá não teríamos problema para encontrar uma oficina mecânica mais profissional, que fizesse todo o serviço de maneira rápida e simples.


O trecho agora era pela rota 40, no lado oeste da Argentina, margeando as cordilheiras dos Andes, acompanhando a divisa com o Chile. Um cenário maravilhoso até Perito Moreno, uma pequena cidade, 664 quilômetros ao norte.


Teríamos um único problema, que já sabíamos desde que partimos de Curitiba. Enfrentaríamos um problema conhecido e que fizemos de tudo para evitar nessa viagem: o rípio.


Quando estivemos no Atacama, sentimos a dificuldade e todo o estresse causado pela pilotagem nas estradas cobertas por esse tipo de pedra, que é um tipo de cascalho, mas que varia de tamanho de acordo com a condição da estrada. Em alguns pontos chega a ser enorme, quase do tamanho de um ovo, mas em outros parece uma areia bem grossa. E o grande problema é a instabilidade gerada. O pneu dianteiro vai escolhendo por onde passar e a frente da moto começa a balançar de um lado para o outro, até sair totalmente do controle. Mesmo sabendo que o melhor é manter uma velocidade constante e continuar acelerando, muitas vezes a única reação possível é parar, respirar e começar tudo de novo. Segundo dicas de outros pilotos, não devemos tentar segurar o guidão forte demais, mas o instinto nos leva a fazer exatamente o oposto.

Para motoqueiros sem experiência no off-road como nós, não tinha muito o que fazer. Eu combinei com o Nicholas de sempre irmos devagar, sem nos arriscarmos demais, mesmo que demorasse bem mais. Em alguns passeios que fizemos no Atacama, com um rípio menos profundo, conseguimos até nos acostumar e, em algum momentos, pilotar de pé, ganhando mais confiança e desenvolvendo maior velocidade, mas eram casos bem específicos, em algumas estradas melhores.

Quando o Nicholas sofreu o a acidente na ida para o Atacama, logo em seguida, pegamos um dos piores trechos de rípio, alguns quilômetros antes de chegar na estrada de asfalto que levava ao Paso de Jama. Era uma verdadeira piscina de cascalho. Deveria ter uns cinco centímetros de profundidade. Foi um dos trechos mais tensos e desesperadores. O Nicholas tinha acabado de cair com a moto e, além do braço dolorido, teve que lidar o fator psicológico da preocupação em sofrer um novo acidente. Foi o maior desafio daquela viagem no que diz respeito à habilidade de conduzir as motos.

Por causa desse episódio, ao planejar a ida ao Ushuaia, decidi seguir um percurso que evitasse estradas de terra, de areia e, principalmente, de rípio. Passei algum tempo confirmando na internet se não teríamos nenhum caso desses. A rota 40 é uma estrada antiga que cruza a Argentina e que os motoqueiros gostam de percorrer, mas com grandes trechos não asfaltados.


Naveguei bastante pelo trecho que pegaríamos entre El Calafate e Perito Moreno para ter certeza que estava todo asfaltado. Porém, há poucos dias da viagem, me encontrei com um parente que, semanas antes, tinha percorrido a Argentina de carro. Ao comentar sobre os trajetos que faríamos, descobri que, saindo de El Calafate, ele também havia passado por Perito Moreno. Sem eu nem mesmo comentar sobre minha preocupação, ele alertou sobre um trecho em obras entre as duas cidades, com um desvio de setenta quilômetros de estrada de terra.


Para quem vai de carro não existe tanta diferença, então ele não lembrava se era de chão batido ou rípio, se o rípio era grosso ou fino, raso ou profundo. Só disse que a estrada estava bem ruim.

Estávamos já nas vésperas de partir e a mudança de planos exigiria remarcar hotel e talvez rever o cronograma. Achei que não valeria a pena, afinal eram apenas setenta quilômetros. Mesmo que fossemos muito devagar, venceríamos esse trecho de forma rápida, com algumas paradas para relaxar caso estivesse muito ruim. E ainda poderíamos nos surpreender e descobrir que era um rípio mais tranquilo ou mesmo a obra já estar concluída.


Sabendo desse problema desde o início, já estávamos esperando por ele. Seria o único momento difícil e estressante da viagem, mas enfrentaríamos com calma e cuidando bastante.


Conforme o planejado, chegamos no ponto da obra e parecia apenas um trecho de estrada de chão. A estrada era de terra bem batida, com pequenos trechos com algumas pedrinhas mais soltas. Porém, alguns quilômetros à frente as coisas foram piorando, com um volume grande e profundo de rípio, que cada vez deixava mais difícil rodar.


Quando chegamos em uma parte mais profunda, com pedras maiores, paramos para descansar. Combinei com o Nicholas que iríamos bem devagar. Mesmo que levássemos duas ou três horas para passar por aquele trecho, estaria tudo bem. Melhor garantir a segurança do que correr o risco de uma nova queda, ainda mais naquele ponto mais deserto da estrada.

Rodamos apenas mais quinze quilômetros e paramos mais uma vez.


Eram visíveis nossa irritação e nossa frustração de não sabermos conduzir de uma forma mais segura e tranquila por aquele tipo de terreno. Era um misto de raiva e preocupação que ia sugando nossas energias e nossa disposição.


Partimos para mais um trecho e eu tinha em mente que, com um pouco de esforço extra, poderíamos resistir um pouco mais e terminar o trecho de rípio em apenas mais uma tentativa, mas então o que eu mais temia aconteceu.


Quando olhei pelo retrovisor, a cena tinha se repetido. A moto estava caída e o Nicholas deitado na estrada. Dessa vez, como estávamos a uma velocidade muito baixa, foi mais como deixar a moto tombar do que um capotamento. O Nicholas estava caído ao lado da NC, mas imediatamente se levantou, fazendo sinal de que estava bem. Mesmo assim parei rápido e voltei correndo para ajudá-lo. Por causa da frustração da queda, ele já estava tentando levantar a moto sozinho, o mais rápido que podia, com um pouco de raiva por ter caído. Pedi para ele largar a moto e esperar, para confirmar se estava tudo bem. Ele mostrou a luva, a única que tinha sido ferida, por apoiar nas pedras durante a queda, e disse que só sentiu um pouco a mão, mas estava bem.


Levantamos a moto e demos uma relaxada a mais, antes de seguirmos em frente.


Por mais que planejamos e tentamos evitar, as surpresas surgem. Apenas torcíamos e esperávamos que esse fosse o último problema da viagem, afinal, daquele ponto em diante rodaríamos só em asfalto. Tudo seria bem mais tranquilo.


Que problemas poderíamos ter no asfalto?