09. Reencontrando o espírito da viagem em Bahia Blanca

No café da manhã em Puerto Madryn, Nicholas não parecia mais animado. Conversamos um pouco sobre o próximo trecho de estrada, para combinar a primeira parada, e ele quis saber como poderia usar menos os freios na estrada. Falei para usar mais o freio da frente, que estava melhor, mas, em momentos assim, é difícil não parecer que você está apenas tentando amenizar um problema que não tem como ser amenizado.


Durante todo o trajeto até Bahia Blanca, tentei mais uma vez sair da minha cabeça e entrar na do meu filho.


“O que ele está pensando?”


“Como está o nível de ansiedade e de confiança de que vai acabar tudo bem?”


Tudo o que mais quis para essa viagem era podermos curtir sem ficar pensando em problemas e em como resolvê-los, como tinha sido grande parte da viagem ao Atacama.


E conseguimos fazer uma viagem assim até os últimos dois trechos, mas agora não estávamos mais curtindo tanto. Estávamos apenas tentando chegar em Bahia Blanca para conseguir uma oficina para cuidar das motos.


A prioridade era o pneu e os freios da NC, mas a ideia era aproveitar para trocar o óleo da GS, que tinha sido comprado errado em El Calafate.


A chegada em Bahia Blanca trouxe um certo alívio, por ser uma cidade realmente grande. Com certeza encontraríamos as soluções que precisávamos.


Deixamos nossas coisas no hotel e já saímos para a Honda, que não ficava muito longe. Paramos em frente a concessionária, mas assim como Trelew, parecia fechada. Não se via clientes nem funcionários. A porta estava fechada, mas forçamos o trinco e ela se abriu. Aguardamos alguém aparecer, mas nada acontecia. Olhei para o fundo da loja, que dava para um pequeno pátio e vi um homem, que percebeu nossa presença e veio nos atender. Achei que estávamos prontos para resolver nossos problemas, mas o homem não se mostrou muito disposto. Explicamos o problema e ele disse que não tinha pneus e pastilhas na loja, mas se a gente conseguisse comprar, talvez ele tivesse alguém para instalar. Mas o pneu não teria como trocar, pois precisaríamos ir a uma borracharia para fazer esse tipo de serviço.


Mais uma vez aquela lógica me parecia surreal. Eu não conseguia entender como os serviços das concessionárias poderiam ser tão diferentes do que estávamos acostumados, mas tinha que aceitar, afinal não iria fazer diferença explicar que no Brasil a concessionária faria todo o serviço.


Perguntei onde conseguiríamos comprar pneu e pastilhas e o homem indicou uma loja, a poucas quadras dali, onde poderíamos adquirir os dois itens e voltar.


Encontramos a loja de peças e finalmente consegui sentir um alívio verdadeiro, porque a loja era a típica lojas de motopeças. Daquelas que você mal consegue entrar devido ao volume de itens que preenchem todo o lugar. Logo na entrada, passamos por um túnel de pneus, de todos os tipos e medidas. Provavelmente teriam o modelo que precisávamos.


No balcão, um senhor e um rapaz se mostraram bastante receptivos. O atendente mais jovem foi muito atencioso e estava disposto a entender nossas necessidades, inclusive indo até à rua para conferir o modelo das pastilhas de freio e conferir as medidas do pneu da NC. Ficamos surpresos ao ouvir dele que a situação das pastilhas não era tão ruim, mas, já que seguiríamos viagem por mais alguns dias, trocaríamos de qualquer forma.


Aproveitei para incluir a troca do pneu da frente da NC, fechando nossa compra em: dois pneus e pastilhas de freio dianteiro e traseiro para a NC e o óleo correto para a GS.


A única coisa que faltava era descobrir onde executar o serviço.


Aproveitei a disposição do rapaz para pedir ajuda. Contei que precisávamos seguir viagem na manhã seguinte, então precisaríamos fazer o serviço todo antes, de preferência naquela mesma tarde.


O rapaz conversou com o homem mais velho, que recomendou um mecânico. E ele mesmo ligou para o mecânico para ver se poderia agendar o serviço. O único contratempo foi descobrir que o mecânico estava fechando a oficina naquele momento, porque dava aula em uma escola profissionalizante, mas se ofereceu para fazer o serviço na primeira hora do dia seguinte.


Não tínhamos muita escolha e, como não precisávamos mesmo sair tão cedo de Bahia Blanca no dia seguinte, com certeza seria melhor partir com tudo em ordem, mesmo que um pouco mais tarde.


Deixamos tudo combinado, anotamos o endereço, pagamos pelas peças e fomos para o hotel, bem mais tranquilos e satisfeitos com o que conseguimos.


Decidimos já deixar as motos abastecidas, afinal não sabíamos quanto tempo perderíamos com todo o serviço na manhã seguinte. Combinamos com o mecânico às oito da manhã, então, no mínimo, sairíamos já depois das nove.


Passamos em um posto YPF enorme, ao lado do hotel, e nesse posto tirei uma das fotos que eu mais gosto das duas viagens. Não porque ela seja boa, mas por ela me trazer de volta a sensação daquele momento. A foto mostra o Nicholas na moto, com um dos pneus pendurado, como se fosse uma alça de bolsa, cruzando o seu corpo. Ele está cansado, mas há um ar de tranquilidade e satisfação que talvez só a gente consiga perceber, mas no momento foi muito marcante.


No posto YPF, após ter conseguido comprar todas as peças que precisávamos.


O nosso estado mental estava bem melhor e estávamos retomando o clima do início da viagem.


Como é frágil nosso sentimento de tranquilidade. Um pouco de distúrbio e já começamos a imaginar coisas ruins, que vão nos desanimando. E mesmo quando conseguimos resolver, demora para recuperarmos a confiança, pois somos lembrados do risco que estamos correndo e das chances de acontecer algo novamente.


Deixamos as coisas no quarto e saímos para ver um pouco da cidade enquanto ainda era dia. Caminhamos em direção à Plaza Rivadavia, uma enorme praça no centro da cidade e ficamos observando os monumentos e a arquitetura ao redor. Bahia Blanca é uma cidade portuária histórica, bem desenvolvida. Uma cidade grande, mas sem o mesmo clima cosmopolita de Buenos Aires.


Talvez pela alegria de ter resolvido a compra das peças, desenvolvi uma admiração pelo local. Gostei muito do passeio que fizemos e desejei ter mais tempo para conhecer melhor aquela cidade.

Plaza Rivadavia no centro de Bahia Blanca.


Passamos em um pequeno bistrô de autosserviço e fizemos um lanche. Não era tarde ainda, o sol ainda não tinha se posto totalmente, mas estávamos sentindo o cansaço e queríamos relaxar um pouco mais. Voltamos para o hotel e ficamos curtindo a sensação de tranquilidade. Logo cedo iríamos deixar as motos prontas para estrada novamente e, no final do dia, chegaríamos em Buenos Aires, onde teríamos dois dias para turismo e poderíamos relaxar mais.


Na manhã seguinte, tomamos café, preparamos as motos e saímos com a intenção de estar na oficina às oito horas. A ideia era não atrasar nenhum minuto. Melhor esperar do que correr o risco do mecânico começar outro serviço e termos que esperar mais do que o necessário.

Chegamos no endereço e não havia nenhuma indicação de oficina, apenas uma grande porta de metal, ainda fechada.


Já estava cogitando a possibilidade de irmos em busca de outra oficina, quando um portão lateral se abriu e um homem apareceu e começou a abrir a grande porta da oficina. Depois de um tempo, olhou em nossa direção e nos cumprimentou com um aceno de cabeça.

Quando ele terminou de abrir, nos apresentarmos e, sem perder tempo, o homem já pediu para colocarmos as motos para dentro.


A oficina era bem mais organizada que as outras em que estivemos. Estava limpa e com as ferramentas organizadas nas bancadas. A parede era decorada com cartazes antigos de corridas de motocross e imagens de grandes saltos com motos.


Perguntei em qual das motos ele trabalharia primeiro, mas o homem era bem mais prático. Cuidaria das duas ao mesmo tempo. Pediu para colocar a GS no lado esquerdo da oficina, para abrir o reservatório de óleo, enquanto cuidaria da NC.


Observávamos a forma habilidosa que ele cuidava das motos, respondendo algumas perguntas que ele fazia sobre nossa viagem. Contamos que tínhamos ido Ushuaia e agora estávamos voltando, com destino a Buenos Aires.


O homem nos contou seu passado como piloto de motocross. Apontou para uma prateleira muito alta, bem próxima ao teto, onde havia uma coleção de troféus de diferentes tipos e tamanhos. Só então o reconheci nas imagens espalhadas pelo local. Era ele em todos os cartazes e fotos. Estávamos sendo atendidos por um ex-piloto de motocross.


Ele nos contou que tinha se aposentado das corridas e ficado apenas com a oficina, além de dar aulas para adolescentes, ensinando a profissão de mecânico de motos. Ainda fazia trilhas para brincar, mas, segundo ele, já estava velho e não aguentaria uma viagem como a nossa.

Saber que ele era um campeão de motocross e também professor nos deixou confiantes, sem falar que a oficina parecia muito mais bem equipada do que a que encontramos em Trelew. Apesar de pequena, a garagem tinha uma plataforma elevatória, onde ele colocou a NC para começar a desmontar os freios e tirar as rodas.


Confirmamos que as pastilhas da frente não estavam tão problemáticas assim, mas estavam mesmo na hora de serem trocadas. Ele retirou a roda, colocou as pastilhas no lugar e falou para esperarmos na oficina, enquanto ele iria a uma borracharia fazer a troca do pneu. Não demoraria muito.


Pegou o pneu novo e a roda, colocou na traseira da camionete e nos deixo sozinhos, na oficina, observando as fotos, os troféus e as ferramentas. Dava para ver que estávamos no ambiente de alguém apaixonado por motos e que entendia do assunto. Estávamos em boas mãos.


O único problema é que não tínhamos noção do tempo que aquele processo levaria. Comecei a calcular o quanto levaria para fazer o mesmo processo com a roda de trás e ainda finalizar a troca de óleo da GS.


Fui ficando preocupado, mas o homem voltou em seguida, tranquilo e sem pressa. As pessoas e o mundo não mudam com a nossa ansiedade e nossa pressa. Nós é que construímos a percepção do tempo das coisas e, às vezes, queremos que todo o resto siga o mesmo ritmo.


Procurei me controlar para não parecer que ele precisava fazer o serviço de forma mais rápida e sem cuidado, mas comecei a perguntar sobre o trajeto até Buenos Aires para lembrá-lo de que pretendíamos chegar lá ainda naquele dia.


Ele se limitou a dizer que, de modo geral, as estradas são muito tranquilas em toda a província e continuou trabalhando no mesmo ritmo.


Depois de instalar a roda da frente na NC, trocou o filtro de óleo da GS e despejou o primeiro galão de óleo no funil. Desmontou o segundo pneu da NC, colocou um segundo galão de óleo para escorrer no funil e mais uma vez nos deixou sozinhos na oficina.


Já tinha passado das nove horas da manhã, então foi inevitável para mim e para o Nicholas conversarmos sobre o tempo que estava levando. Eu não queria de forma alguma fazer meu filho voltar a se preocupar com a viagem. Queria que voltássemos a curtir como nos primeiros dias. Esquecer o pneu quase estourado, esquecer o pequeno trecho de rípio, com uma nova queda, por mais insignificante que tenha sido.


A ideia era fazer o próximo trecho de maneira tranquila, curtir dois dias em Buenos Aires e em seguida finalizar a volta para o Brasil.


Teríamos tempo de sobra. Mesmo que chegássemos tarde, como aconteceu em Puerto Madryn, não teria tanto problema.


Comentei que eu estava feliz que as motos estavam ficando prontas para seguir viagem e que mesmo que a gente saísse às dez da manhã de Bahia Blanca, ainda assim seria tranquilo chegar em Buenos Aires ainda com luz do dia, afinal era um trecho de 635 quilômetros. Mesmo saindo às onze, estaria tudo bem.


Logo depois o mecânico chegou com o segundo pneu. O restante do trabalho foi feito de forma muito rápida e prática. Ele colocou o pneu rapidamente, baixou a plataforma e já deixou a moto na rua, pronta para sair. Terminou de completar o óleo da GS e pediu minha ajuda para colocá-la ao lado da NC.


Já passavam das dez da manhã quando pagamos e nos pedimos, mas estava tudo sobre controle, teríamos tempo para chegar em Buenos Aires antes do anoitecer. Pegamos uma estrada que não tínhamos usado na ida, mas não tivemos nenhuma surpresa. A estrada era boa e sem muito movimento.