08. Não é todo dia que se chega ao Ushuaia

Às vezes, o ponto mais marcante de uma viagem não é o destino, nem o retorno para casa.

Existem momentos em que percebemos que a coisa toda tem um sentido maior, uma satisfação inesperada.


Nessa viagem, os 100 quilômetros antes de chegar ao Ushuaia deram uma outra dimensão a tudo o que estávamos vivenciando.


Estávamos perto, mas ainda faltava o trecho que eu costumo encarar como o “último fôlego”. Aquele momento do dia de viagem em que subimos pela última vez na moto, sabendo que só desceremos dela no lugar em que vamos poder realmente relaxar, chegando no hotel que passaremos a noite. O último ciclo de um dia de vários trechos, paradas e abastecimentos.


No “último fôlego” do dia que chegaríamos ao ponto mais distante da viagem, eu fui tomado por uma sensação incrível, envolto pela grandiosidade do cenário.


A 100 quilômetros do Ushuaia, a estrada começa a contornar o Lago Escondido, indo em direção a um conjunto belíssimo de montanhas, formando mais um daqueles cenários que não parecem reais.

Lago Escondido

Mais do que ficar deslumbrado com a vista, comecei a me dar conta de onde realmente estávamos e a pensar no que tínhamos alcançado. Estávamos prestes a chegar no ponto mais distante da America do Sul, em uma viagem tranquila e sem grandes problemas.


Eu estava cansado, mas extremamente feliz.


Desde que comecei a sonhar em fazer viagens de moto, eu esperava por aquele momento. A viagem até aquele ponto tinha levado seis dias, mas na verdade trazia na bagagem uma expectativa de quinze anos. E, além de tudo, eu não estava fazendo isso sozinho. Estava, com meu filho.


A medida que fomos passando as montanhas e chegando mais próximo da cidade, a alegria foi crescendo.

A montanhas que circundam Ushuaia


Quando fazemos uma viagem assim mais longa, com muitos quilômetros rodados todo dia, perdemos um pouco a dimensão da distância percorrida, desde o lugar de onde partimos até onde chegamos, mas naquele momento, lembrei de todas as paradas que fizemos naquela semana, e aquilo deu ainda mais significado ao fato de estarmos, finalmente, chegando no Ushuaia. Muito mais que a sensação de alcançar o destino pretendido, a conquistas traz a emoção de ter vivido cada segundo na estrada e, é claro, carrega também o cansaço disso tudo.


Uma das poucas coisas que me arrependo do meu planejamento de viagem é o fato de não ter ficado pelo menos um dia em Ushuaia para dar ainda mais valor a esse momento.

Tínhamos combinado que, ao entrar da cidade, já pararíamos na placa turística, para tirar a foto oficial de registro do nosso objetivo, mas fora isso não sabíamos muito o que fazer no Ushuaia.


Com certeza, poderíamos ter curtido mais se tivéssemos passado mais tempo na cidade, sem a obrigação de pegar o caminho de volta já no dia seguinte. Porém o objetivo nesse ponto era provar que éramos capazes, mais do que querer conhecer o lugar.


No Atacama foi diferente. Queríamos conhecer a cidade e os lugares turísticos. Nós sofremos muito para chegar lá, mas quando chegamos, estávamos com dois dias inteiros apenas para curtir a cidade, visitar as atrações da região, tomar banho nas águas quentes dos gêiseres, comer comidas diferentes, ver a pequena vila à noite. A volta do Atacama foi tão cansativa quanto a ida, mas tínhamos nos recuperado e nos energizado ao ficar em um hotel legal, sem estrada por um tempo.


Em comparação, a noite que passamos no Ushuaia foi muito sem graça.


Encontramos o hostel em que ficaríamos, deixamos as nossas coisas e saímos para dar uma volta. Tínhamos apenas um objetivo específico: aproveitar o fato de estarmos em uma cidade turística para trocar dinheiro.



Fomos para a rua principal, repleta de restaurantes e lojas de lembrancinhas. Passamos por algumas agências de turismo, onde nos indicaram um hotel. A moça que nos informou disse que a casa de câmbio estava fechada, porém poderíamos tratar na recepção do hotel que ficava exatamente ao lado.


Na minha ingenuidade, achei que era um negócio administrado pelo mesmo dono e que apenas encontraram uma forma de atender os turistas fora do horário normal. Ou talvez o hotel fazia troca de moeda, usando o dinheiro que recebia dos hospedes. Mas, ao chegar lá, nos vimos em uma cena de filme, que poderia muito bem ter sido dirigido pelo Tarantino.


Atrás do balcão da recepção, não havia ninguém. No saguão, dois homens, sentados em poltronas antigas e coloridas, fumavam cigarrilhas.


— Câmbio? — perguntei para os homens ao mesmo tempo que apontei para a recepção abandonada.


— No final do corredor. À direita — disse um dos homens, sem tirar a cigarrilha da boca, usando a cigarrilha para mostrar um corredor estreito e escuro ao lado do acesso principal para os elevadores.


Olhei para o Nicholas e fiz sinal para seguirmos as instruções.


Caminhamos pelo longo corredor que, sem iluminação e nenhuma porta, ia ficando cada vez mais escuro a medida que avançávamos.


Depois de alguns passos na penumbra, vimos uma luz vindo de uma porta a direita, como nos tinha informado o senhor do saguão. Podíamos ouvir uma voz, mas o que dizia era indecifrável.


Quando alcançamos a porta, vimos uma espécie de sala de preparação da cozinha do hotel, com parede de azulejos brancos encardidos e bancadas metálicas cheias de utensílios e equipamentos. Alguns homens estavam encostados nas bancadas, sem fazer nada, apenas observando o protagonista da cena.


O dono da voz era um oriental simpático, com um cigarro nos lábios. Ele estava atendendo um casal de idosos, com jeito de turistas europeus, e passava um maço de dinheiro para a mão da senhora. Recontaram o dinheiro, agradeceram e saíram, tranquilos e satisfeitos.


— Que moeda você tem para trocar? — perguntou o oriental, ao mesmo tempo esquisito e simpático.


— Reais — eu disse.


O homem abriu uma enorme gaveta com muitas cédulas jogadas de forma aleatória, como se fossem papéis velhos, abandonados por alguém. Enfiou a mão na gaveta, afastando algumas pilhas irregulares, até pegar um maço de pesos.


— Quanto?


— Mil reais — respondi.


O oriental puxou uma calculadora e pressionou algumas teclas com rapidez.


— Esse é o valor do peso — disse ele, virando o visor para nós. — Vezes mil — bateu as teclas e mostrou novamente.


Eu apenas balancei a cabeça, concordando.


Enquanto contava as cédulas e separava em pilhas diferentes, o homem perguntou se tínhamos mais dinheiro para trocar. Falei que tinha alguns dólares, mas estavam no hostel e ele falou que me esperaria lá até às dez da noite, caso eu quisesse.


Aquilo já estava estranho o suficiente. Voltar à noite naquela cozinha seria algo bem esquisito, então apenas agradeci e falei que não teríamos tempo de voltar.


Saímos de lá achando muito surreal toda a experiência, mas pelo menos conseguimos trocar dinheiro para os próximos dias.


Antes de retornar ao hotel, já com o comércio quase todo fechado, fomos procurar lojinhas para comprar lembranças do Ushuaia. Acho que o Nicholas tinha valorizado mais a chegada, pois foi ele quem se preocupou em levar algum item para guardar de recordação.Eu nem tinha pensado nisso.


Só naquele momento me dei conta de que estava tão focado no processo de seguir viagem que tinha até esquecido de registrar a conquista de alguma outra forma. Eu estava já com a cabeça na volta e deixando de aproveitar o que estávamos vivendo. Tínhamos feito uma grande conquista, mas eu só conseguia pensar que na manhã seguinte sairíamos de novo em direção a Rio Gallegos, de onde tínhamos partido naquela mesma manhã.


Independente do momento, seja ele pequeno ou grande, em um lugar lindo ou feio, mais fácil ou mais difícil de se chegar, temos que viver aquele momento, porque em seguida ele deixará de existir e será esquecido.


Chegar ao ponto mais distante da América do Sul e desperdiçar esse momento foi uma grande perda, pois dificilmente teremos a chance de voltar àquele lugar, nas mesmas condições.


Mas eu entendo que o sentimento experimentado no Ushuaia foi fruto do acúmulo emocional de dias seguidos de estrada, combinado com o desejo de começar a voltar para casa, afinal eu já estava distante do resto da família há uma semana, e essa sensação de querer retornar talvez tenha influenciado bastante. Porém mesmo com pressa se voltar, precisamos sempre dedicar um tempo para perceber e valorizar a conquista que fizemos, curtir o fato de que aquele era um grande sonho e ele foi realizado.