07. Questionamentos e preocupações em Puerto Madryn

Depois do serviço feito, partimos de Trelew para o último trecho do dia, até Puerto Madryn, aliviados por termos conseguido um pneu um pouco melhor, que nos daria um pouco mais de segurança, mas ainda assim preocupados por saber que não era a solução ideal e precisaríamos encontrar um solução definitiva no dia seguinte.


De qualquer forma, eu estava ansioso para chegar em Puerto Madryn.


Desde o início daquele longo dia, a ideia era chegar com tempo de sobra para poder apreciar um pouco dessa cidade turística. Porém, quando saímos de Trelew, o sol já estava começando a se pôr. Rodamos os 66 quilômetros de forma tranquila, mas com muita vontade de chegar no hotel e considerar finalizada aquela etapa.


A determinação de não viajarmos à noite e chegarmos nas cidades-destino com tempo para relaxar nos acompanhou em cada trecho da viagem. Mas, como aquela troca de pneu não estava nos nossos planos e tomou muito mais tempo do que imaginávamos, já sabíamos que aquele dia não seguiria a lógica do nosso planejamento.


Chegamos em Puerto Madryn nos últimos minutos de luz do dia e percebi que o homem da oficina tinha falado a verdade. A cidade era menor e mais simples do que eu imaginava. Uma típica cidade litorânea que funciona para o turismo, com casas de veraneio, hotéis e um comércio dedicado a atender esse tipo de público, mas sem uma infraestrutura maior de empresas, um grande comércio ou uma rede de serviços especializados.


Para completar o efeito de quebra de expectativa, descobrimos que nosso hotel, apesar de bem localizado, na avenida principal próximo ao mar, o hotel era um dos mais antigos em que ficamos nas duas viagens, com um quarto muito pequeno e bem velho.


Seguimos nossa rotina de chegada de uma forma um pouco mais acelerada. Combinamos de tomar um banho rápido e já descer para dar uma olhada no local e procurar algo para comer.

Logo após o banho, notei o Nicholas mais quieto e pensativo, sem curtir tanto o fato de termos chegado em uma nova cidade, como aconteceu das outras vezes. Já tínhamos passado por situações de cansaço extremo, após longos dias de estrada, mas aquilo estava sendo uma experiência diferente e tinha nos afetado bem mais. Em nível de stress, foi um dos piores trechos e, devido a tudo que tinha acontecido em menos de vinte quatro horas, a sensação era de que tínhamos deixado a cidade de Perito Moreno há dias.


Quando descemos para dar uma volta e procurar um lugar para jantar, já era noite e pouco conseguimos ver da praia e do mar. Lembro de ter tirado apenas duas fotos. Não estava no clima de curtir aquele lugar. Era uma sensação estranha estar ali, tentando aproveitar a calmaria após algo tão intenso. Além disso, havia o sentimento de termos falhado no cronograma e completado o trecho com atraso, como se tivéssemos chegado a uma festa onde as pessoas já estavam se despedindo.

As duas únicas fotos que tiramos nesse dia, já em Puerto Madryn.

Pedi para o Nicholas decidir o que comer e perguntei se ele queria caminhar um pouco pela avenida para encontrar mais opções, mas ele disse que poderíamos comer na pizzaria que ficava na esquina, logo ao lado do hotel. Naquele momento, achei o cansaço e a fome tinham impactado a decisão dele, mas, sentados no restaurante, percebi que estávamos mesmo abalados e de um jeito diferente.


Naquele jantar estávamos menos animados e não falamos quase nada até a pizza chegar. Comemos sem muita empolgação e eu percebi o Nicholas muito pensativo.


Depois de comer, ele começou a falar mais e finalmente percebi o ponto que incomodava: o freio da moto. Ele estava preocupado com o comentário do homem da oficina dizendo que as pastilhas estavam no limite e, como ainda teríamos um dia inteiro de estrada até uma nova chance de consertar a moto, aquilo estava deixando ele receoso.


É estranho como cada um vai lidando com os problemas. Para mim, o comentário sobre o freio era algo menor perante tudo que havíamos passado. A pastilha era um problema bem mais simples do que o pneu. Essa era uma visão bem particular, porque, na estrada, eu não uso muito o freio, mas, para o Nicholas era uma questão importante, pois era o que lhe dava mais segurança no controle na pilotagem.


Eu tentei tranquilizar meu filho sobre o uso dos freios. Expliquei a minha maneira de usá-los, mas sabia que não adiantava muito. Nicholas gostava de sentir a segurança do freio, ou achava que dependia dele mais do que realmente precisava. De qualquer forma, era a relação dele com o freio e não tinha como mudar isso de uma hora para a outra, simplesmente com uma conversa.


Nicholas perguntou alguns detalhes sobre o próximo trecho, sobre a quantidade de curvas e se tinha muita serra, além de querer saber quais eram os planos para conseguir uma oficina em Bahia Blanca. Percebi que era melhor focarmos nos planos para resolver o problema e começamos a listar nossas alternativas e possibilidades.


Ao chegarmos em Bahia Blanca, precisaríamos ir à concessionária Honda da cidade. Nicholas pesquisou na internet e descobrimos que ela não ficava muito longe do hotel que tínhamos reservado. A coincidência nos deu um pouco mais de ânimo, mesmo sabendo que levaria muito mais tempo para nos recuperarmos do estrago que aqueles 199 quilômetros tinham causado na nossa motivação.


Fomos para o hotel com nosso planejamento atualizado e tentamos descansar o máximo possível.


Depois de tudo concluído, fica fácil olhar para trás e perceber que os problemas não eram tão grandes assim, mas quando você está viajando, em um cidade distante, em outro país, aquilo tudo vai se somando e vai te deixando cada vez mais tenso e frustrado. As coisas ganham outra dimensão. Mas já tínhamos aprendido bastante. Inclusive que as dificuldades não param de aparecer.


Por mais que a gente ache que, ao resolver o último problema, tudo ficará bem, isso não é necessariamente uma verdade. Sempre teremos novas dificuldades e elas fazem parte da aventura. Mesmo ajustando os planos, um novo cenário surge, com novas variáveis, que podem causar novos problemas.


Quando deixamos Curitiba rumo ao Ushuaia, eu pensava que essa viagem teria o mínimo de problemas, com dificuldades normais que iríamos nos adaptando. Como a troca de óleo em El Calafate ou como o contratempo que enfrentamos com câmbio de moeda no início da viagem.


Eu tinha seguido dicas de amigos, que disseram que valeria mais a pena levar reais e trocar por pesos em casas de câmbio na Argentina. Essa talvez fosse uma boa dica para quem estava indo para uma grande cidade, como Buenos Aires, onde se pode escolher casas de câmbio, mas para quem está cruzando a Argentina de moto fica difícil se programar da mesma forma e encontrar opções com a mesma facilidade.


Em Campana, nossa primeira estadia na Argentina, percebemos essa dificuldade e aprendemos que seria sempre melhor trocarmos valores maiores quando encontrássemos uma casa de câmbio aberta. A partir daquele ponto, já nos adaptamos para fazer trocas de moeda em cidades mais turísticas que encontraríamos pelo caminho. Trocamos dinheiro com um agente de turismo em Rio Gallegos, no Ushuaia e mais tarde em El Calafate.


Esses problemas e seus aprendizados vão nos adaptando e nos fazendo adequar a viagem. São estressantes quando surgem, mas aos poucos vamos assimilando e incorporando à rotina.


Mas quando o problema no pneu apareceu, não foi uma situação que podíamos ir nos adaptando e evoluindo com o aprendizado. Era mais como um golpe forte, nos chamando a atenção. E o efeito colateral foi uma onda de desânimo nos envolvendo de uma vez só.

Eu fiquei abalado com o descuido e o Nicholas também deve ter sentido a angústia toda, afinal ele estava pilotando o problema.


Não sei se isso tudo contribuiu, ou foi a adrenalina e o stress que tinham baixado, mas era evidente o nosso abatimento, que trazia novos questionamentos.


“Por que colocar nossas vidas em risco dessa forma?”


“Por que fazer uma viagem dessas?”


Existe algo de irracional em querer cumprir um desafio ou realizar um sonho desses. Se pensarmos muito e analisarmos todas as questões práticas, desistimos.


“Faz sentido gastar tempo, dinheiro e sanidade para ir até o ponto mais distante da América do Sul?”


“Quem se importa?”


Em certa medida, é como quem decide escalar o Everest, cruzar o atlântico sozinho de barco, ou atravessar o canal da mancha a nado.


“No fim das contas, o que se ganha com isso?”


“A experiência de ter vivido.”


É a resposta mais aceitável, mas sempre há margens para contra-argumentações.

“Vale a pena?”


A resposta é sempre muito pessoal, afinal cada um atribui um valor a essa experiência. E mais uma vez entra a questão do equilíbrio. Uma experiência, para ser valorizada, deve trazer certos desafios, mas planejamos para que tudo dê certo, sem grandes riscos e sofrimentos. Quando os problemas acontecem, eles transformam a experiência em algo ainda mais significativo, mas ao mesmo tempo nos leva a pensar em desistir. Os problemas evidenciam o fato de que não fizemos as melhores escolhas e nos lembram de que talvez não estamos preparados para encarar esse tipo de aventura, nem de cuidar das pessoas que envolvemos no processo.


Na noite em Puerto Madryn, cheguei nas maiores dúvidas.


“Fiz a escolha certa de viajar nessa época?”


“Escolhi as motos adequadas?”


“Planejei tudo errado?”


“Fui descuidado demais?”


Talvez não fossemos competentes o suficiente para fazer algo tão desafiador como ir de Curitiba ao Ushuaia de moto. Acreditamos que seríamos capaz, mas não tínhamos noção do que poderia acontecer.


Naquele momento, não sobravam muitas certezas, mas eu sabia que o único jeito era encarar mais um trecho.

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