06. O equilíbrio nas viagens de moto

Quando aprendemos a andar de bicicleta, equilíbrio é tudo. Todo o processo depende desse conceito básico de manter a bicicleta em movimento constante e só nos consideramos preparados quando tiramos as rodinhas e conseguimos seguir em frente sem por o pé no chão.


Para andar de moto, outros elementos entram em jogo como a potência de arrancada, o ganho rápido de velocidade, os espaços entre os carros e a visibilidade nas vias, mas a essência é a mesma. O equilíbrio precisa ser mantido. E quando começamos a usar a moto em viagens longas, além dos passeios e o uso do dia a dia, passamos a observar outros tipos de equilíbrio envolvidos.



No caso das nossas viagens, aprendi muito sobre o equilíbrio entre caminho e destino, entre motoqueiro e moto, e entre as pessoas que estão participando daquela viagem.


O primeiro ponto fundamental foi entender e aceitar as relações entre as distâncias percorridas e os lugares aonde pretendemos chegar.


Em comparação à experiência do Atacama, a viagem para o Ushuaia teve um envolvimento muito maior com o trajeto, no sentido de curtir e aproveitar o caminho. Ao mesmo tempo que eu tinha o plano de chegar o quanto antes, levei em consideração os momentos que nos levariam até lá.


Muitas vezes, em paradas no meio da tarde, para um café em algum posto de algum trecho quase deserto, ou em um restaurante em uma cidade muito pequena e desconhecida, com o cansaço dominando quase todos os meus pensamentos, eu me questionava sobre o cronograma da viagem.



“Se tivesse decidido por trechos mais curtos, de 500 ou 600 quilômetros, estaríamos parando mais cedo, ainda no começo da tarde. Não estaríamos tão cansados. Teríamos mais tempo livre para descansar e curtir o local.”


Mas então eu olhava para o lado e via aquele imenso descampado da Patagônia, com cidades sem muita infraestrutura.



“O que faríamos com o tempo livre, aqui, nesse ponto da viagem?”


A resposta parecia óbvia.


“Poderíamos descansar um pouco mais.”


“Mas por que passar mais tempo aqui, onde não há nada?”


“Com o tempo que ainda resta com luz do dia, podemos continuar rodando e chegar ao destino mais rápido.”


À noite, quando eu e o Nicholas deitávamos e trocávamos algumas palavras sobre a viagem e sobre essas escolhas, eu ficava pensando nas pessoas que fazem viagens de volta ao mundo, ou decidem sair sem um destino pré-definido, com o mínimo de planejamento, sem um cronograma rígido a ser seguido, sem um prazo para chegar. Essas pessoas não precisam cumprir nenhuma quilometragem específica. As decisões sobre onde parar e onde dormir são aleatórias, baseadas em outros critérios. Deve ser interessante, poder, durante um dia difícil e cansativo, com muita chuva ou muito calor, simplesmente dizer: vou parar por hoje.


“Isso sim é uma boa forma de viajar.”


“Mas quem consegue simplesmente abandonar todas as preocupações da vida e seguir em uma viagem dessas?”


Sempre pensei que esses viajantes são pessoas de sorte, justamente por terem essa liberdade em relação ao tempo. Afinal, tempo é realmente um luxo. E tempo livre é de fato o que há de mais valioso na vida.



Ao encarar por esse ângulo, fica até simples entender porque para algumas pessoas as viagens de moto passam a ser um estilo de vida, um modo de pensar, uma forma de meditar. Torna-se quase uma filosofia de vida.


Na estrada, aprendemos que o tempo vale mais do que tudo na vida. E geralmente, abrimos mão dele para nos tonarmos escravos de alguma outra coisa, que nos obriga a tomar decisões indesejadas, como se não tivesse o valor que tem. O tempo impacta em uma série de decisões, que influenciam outras tantas. Impacta no equilíbrio entre piloto e moto, porque define a escolha da moto, que determina o trajeto, que estabelece o ritmo da viagem.


Eu sempre sonhei em fazer grandes viagens e sempre achei que para isso precisava de uma grande moto, não apenas em questão de tamanho e potência, mas também em termos de capacidade: de tanque, de conforto e de resistência. Por todos esse fatores e pelos outros relatos sobre viagens de longa distância que sempre acompanhei, eu tinha definido a BMW como a marca que atenderia todas as minhas necessidades. E, particularmente, sempre gostei do modelo GS, em especial a versão Adventure, que tem um tanque maior, além de outros itens adicionais.



Por conta disso, quando comprei exatamente essa moto, a sensação era de que eu estava com as condições ideais. Porém, ao longo da viagem ao Ushuaia e com os aprendizados do Atacama, repensei uma série de coisas e acabei percebendo que nesse aspecto é preciso mesmo haver um equilíbrio maior.


Indo para o Atacama, não adiantou ter uma moto potente e com tanque grande. Para acompanhar a Xre 190, não pude usar toda a potência da moto e, apesar da capacidade de combustível, não conseguíamos ficar mais de 3 horas em cima da moto, rodando sob um sol forte. Nesse ponto, aprendi que as motos em uma viagem devem ter um perfil mais próximo umas das outras, para manterem um mesmo ritmo, que deve ser planejado com esse desempenho em mente. A cilindrada não importa, desde que estejam em uma mesma faixa. Conhecemos vários casos de pessoas que viajaram com motos de baixa cilindrada até mesmo para o Alaska.


Tudo é uma questão de tempo e de ter liberdade para fazer muito mais paradas, mas o tamanho da moto não define o tamanho da viagem.


O planejamento para o Ushuaia foi muito mais baseado em um equilíbrio entre tempo, capacidade física (nossa e das motos) e dinheiro. Poderíamos ir parando mais, mas levaria mais tempo e gastaríamos mais com hospedagens. Poderíamos ir super rápido e não ter nenhuma pausa para curtir os locais, mas até que ponto o cansaço valeria a pena?


Nossa viagem poderia ter cinco dias a menos, se não fizéssemos nenhum programa de turista, em nenhuma cidade. Escolhemos apenas dois desses momentos e, hoje, avaliando melhor, acho que foi pouco, mas tínhamos também a necessidade de cumprir uma data de chegada para, mais uma vez, equilibrar minhas férias com o restante da família. Ou seja, se temos uma moto potente, com grande autonomia, podemos tirar proveito dessas vantagens, mas usar toda a capacidade significa abrir mão de outras coisas.


Na verdade, percebi que viajar com uma moto de 1200 cilindradas ou uma de 700 não faz tanta diferença e, se você usa a moto também para o dia a dia na cidade, a 700 torna-se a escolha mais acertada, por oferecer mais agilidade, flexibilidade e economia para as duas situações.


Outra coisa que descobri é que a maior capacidade do tanque também não é tão útil assim, porque no fundo as paradas são mais do que abastecimento de combustível. Muitas vezes são para reabastecer nossas próprias energias, físicas e mentais. São oportunidades para voltar a conversar com alguém, sentar para tomar um café, esticar as pernas ou ir ao banheiro. Claro que, saber que podemos rodar mais de 400 quilômetros sem parar, é uma grande vantagem, mas quando juntamos os outros fatores necessários para suportar esses desafios, fica mais difícil ter essa disposição de percorrer grandes distâncias de uma única vez. Além disso, em longas viagens aprendemos que, mais do que ter grandes desempenhos esporádicos, o importante é conseguir um desempenho constante. Isso sim é um equilíbrio fundamental.


Hoje, apesar de ainda sentir vontade de um dia viajar com uma Goldwing ou com uma BMW da linha K, minha escolha seria uma moto menor.


Outro equilíbrio essencial é entre as pessoas que viajam junto, seja em dupla, trio ou grupos maiores.


No nosso caso, éramos apenas dois e precisávamos saber dosar as coisas entre nós. A viagem foi um grande aprendizado sobre o que seria melhor para os dois e, com certeza, essa relação interfere no planejamento e na evolução de cada trecho.



Quando viaja sozinho, você não se preocupa com muita coisa na hora de tomar decisões. Seguir em frente ou parar, descansar ou aguentar mais um pouco, comer ou apenas tomar um café, tudo é uma decisão simples. Basta escolher e fazer. Até mesmo a ultrapassagem de um carro ou caminhão é algo que você simplesmente executa. Mas quando estamos acompanhados, esses e outros detalhes passam a exigir um certo planejamento, um acordo prévio ou uma parada rápida para avaliação. As preocupações deixam de se concentrar apenas em você e se estendem ao outro.


Desde a viagem para o Atacama, decidi que eu iria na frente. Pareceu uma decisão lógica, já que ficar 100% visível seria uma forma de sinalização prévia de problemas, para ajudar o Nicholas a evitá-los, como um buraco na pista ou uma curva mais acentuada, além de seguir o caminho certo, já que eu tinha o GPS na minha moto.


Mas o grande equilíbrio veio dos acordos que nasceram da nossa experiência em conjunto. Sempre decidíamos a quilometragem que rodaríamos em cada parte do dia, levando em consideração o cansaço de cada um e a motivação que restava no momento. Dividíamos essa vontade de levar a viagem adiante, chegar logo ao destino, mesmo quando estávamos exaustos. Após o combinado, sabíamos que deveríamos tentar seguir o plano, como parte de um apoio mútuo, mas sem esquecer que existia a possibilidade de uma parada de emergência, caso fosse necessário.



Existe sempre uma relação psicológica em todas essas pequenas atitudes e na relação com a estrada e com a moto.


Uma viagem de moto é diferente de uma viagem de carro por diversos motivos, mas o principal deles é que estamos muito mais presentes. Estamos totalmente ligados à viagem. Sentimos o movimento, com o impacto do vento no nosso corpo. Vemos a estrada passando embaixo de nós e a percepção de movimento é total. Além disso, a moto exige atenção e não permite muita mudança de foco, como em um carro, onde temos espaço para deixar uma garrafinha de água para matar a sede enquanto dirigimos, ou um pequeno lanche para saciar a fome ou apenas passar o tempo. Na moto não temos tanta liberdade nem mesmo para controlar ou analisar o trajeto que está no GPS. A relação é muito mais limitante, ao mesmo tempo que é mais intensa. Tudo nos deixa muito mais presos a nós mesmos, cada vez mais sozinhos com os nossos pensamentos, mesmo se estamos viajando com outros.


Em uma viagem solitária, é óbvio que esses pensamentos sempre vão dizer respeito a questões pessoais, relacionados à próxima parada ou aos cálculos baseados no odômetro e na velocidade que estamos fazendo. Mas, viajando com outra pessoa, uma parte dos pensamentos está relacionado ao que a outra pessoa está sentindo.


“Será que está tendo as mesmas percepções?”


“Será que está mais cansado do que eu?”


“Será que está gostando?”


“Será que prefere parar ou aguenta mais um pouco?”


Esses questionamentos não podem ser feitos no momento que surgem, com uma simples pergunta. Ficamos sem resposta até a próxima parada. Dúvidas, pensamentos e reflexões vão se acumulando. No meu caso, além de ficar me questionando, eu imaginava as possíveis respostas e tentava encontrar as melhores alternativas para saber o que meu filho estava pensando.



Quando parávamos, era normal descobrir que eu havia remoído demais algum pensamento banal que não condizia em nada com a percepção que o Nicholas teve. Ou, às vezes, eu até acertava, mas já tinha passado muito tempo e não fazia mais a menor diferença.


Essa é a beleza de uma viagem de moto e um dos grandes ensinamentos que podemos tirar para nossa vida. Estamos seguindo nosso caminho, liderando em alguns momentos, sendo liderados em outros, sozinhos em muitos deles e, por mais que percorremos juntos um mesmo trecho por um período de tempo, cada um tem a sua relação com aquele momento. Por mais que a gente queira controlar certas coisas e cuidar para que a outra pessoa tenha a mesma experiência ou não sofra com o que achamos que ela vai sofrer, não adianta querer impor, não adianta querer antecipar. Cada pessoa é diferente e tem percepções particulares sobre o caminho. Cada um irá aproveitar a experiência da sua forma e irá formar a sua opinião. Não existe certo ou errado. Existe o aprendizado que cada um leva de cada parte percorrida.


As viagens me ensinaram a não querer controlar as coisas que não têm controle e a respeitar o fato de que cada um tem a sua experiência individual, mesmo quando estamos em conjunto.


É assim que devemos encarar os caminhos simples do nosso dia a dia, mas às vezes precisamos de uma viagem ao fim do mundo para perceber a importância desse equilíbrio entre as coisas.

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