05. Procura-se uma oficina em Trelew

Após completarmos os 199 quilômetros e chegarmos a Trelew, acessamos o wi-fi da loja de conveniência do posto e descobrimos que havia uma concessionária Honda na cidade.


Coloquei o endereço no GPS e saímos. A chuva ainda caía, mas com menor intensidade. As ruas estavam alagadas, indicando que havia ocorrido uma forte tempestade, em um curto espaço de tempo, mas já estava passando. Ainda era quatro da tarde. Tínhamos grandes chances de trocar o pneu e finalizar os últimos 66 quilômetros até Puerto Madryn.


Porém, não encontramos a concessionária.


Chegamos na rua, mas não achávamos o número. Demos algumas voltas, para percorrer uma extensão maior da rua, mas mesmo assim não encontramos.


Paramos em mais um posto, para consultar a internet mais uma vez e pedir informação, mas não conseguimos muita coisa. Lembrei que tínhamos passado por uma concessionária Honda de automóveis, na avenida principal de acesso ao centro, e resolvemos ir até lá, pedir informação, afinal, pessoas que trabalham no ramo têm uma noção melhor sobre outras concessionárias e oficinas mecânicas. Essa lógica tinha funcionado em Rio Gallegos.


Chegando lá, conversei com um dos vendedores, que nos passou a rua onde ficava a concessionária Honda de motos, mas sem saber especificar o número, nos dando apenas uma ideia aproximada.


Fomos até o início da numeração que ele tinha indicado e começamos a percorrer a rua lentamente. Algumas quadras à frente, encontramos a concessionária, mas estava fechada. Parecia desativada ou como se tivesse entrado em algum tipo de recesso. Na esquina, havia uma pequena loja de autopeças, onde encontramos dois vendedores e, por sorte, eles sabiam exatamente onde resolveríamos o nosso problema. Indicaram uma borracharia, especializada em pneus de motos, não muito longe de onde estávamos.


Pelo nosso histórico, eu já não confiava tanto nas direções que nos davam na Argentina. Tudo era sempre muito relativo e parecia ter uma grande margem de erro, mas, felizmente nesse caso, eu estava errado e chegamos exatamente ao local indicado.


Paramos as motos na rua, porque o grande galpão estava lotado de motos, carros e até um barco.


Não pude deixar de pensar naquele absurdo.


“A última coisa que eu esperava encontrar em uma borracharia, era um barco.”


Apesar desse fato inusitado, era um bom sinal ver tantas motos paradas na frente e outras várias dentro do galpão.


Falamos com um homem que nos atendeu de forma simpática, já perguntando da onde vínhamos. Demos as respostas básicas e ele foi até a NC para dar uma analisada no pneu que precisávamos trocar, já se prontificando a fazer o serviço.


Mais uma vez, fui inundado pelo sentimento de que o problema seria resolvido de forma simples e poderíamos ficar tranquilos, já que tudo ficaria bem e rapidamente voltaríamos para a estrada, sem maiores problemas.


Só que as coisas não são tão simples, não se resolvem imediatamente e nem de forma completa e permanente.


(Fotos aleatórias das nossas motos, porque, no stress para encontrar um lugar para trocar o pneu, nem pensamos em tirar fotos.)




Apesar da disposição para trocar o pneu, o homem da oficina nos avisou que precisava primeiro conseguir o pneu certo em uma loja especializada, mas garantiu que isso era coisa simples de resolver.


Ligou para a loja e conversou por um instante, passando as especificações do pneu, mas descobriu que aquele modelo não tinha a pronta entrega. Entrou em contato com mais dois estabelecimentos, que também não tinham o pneu, mas o último deles ficou de retornar para confirmar se conseguiria de outra maneira.


— Temos outro jeito, caso eles não tenham o pneu? — perguntei para ele. — Podemos ir em alguma loja buscar?


— Essas são as lojas que vendem pneus aqui. Se eles não têm, não existe na cidade. Mas vão conseguir, só precisamos aguardar.


O otimismo do homem era um pouco incômodo, mas achei que era meu pessimismo entrando em ação, querendo pensar no pior cenário.


Talvez com a intensão de minimizar minha angústia, ele pegou um pneu velho e careca que estava jogado em um canto da oficina e nos explicou as características do pneu traseiro da NC. Aquele pneu usado era um pouco mais largo e o nosso teria que ser um pouco mais estreito. Foi até a calçada e nos mostrou duas motos da polícia que estavam paradas perpendicularmente ao meio fio. Contou que ele tinha acabado de colocar nelas pneus exatamente do modelo que precisávamos. Encostou o pneu careca no pneu zero de uma das motos, para mostrar a diferença de largura.


Toda aquela explicação ajudou a entendermos melhor o problema, mas não serviu de consolo. Só me fez pensar que talvez aquelas motos tenham usado as duas últimas unidades dos pneus que precisávamos e agora ficaríamos sem nenhum. Mas o jeito era esperar o retorno da outra loja e confirmar se isso era verdade.


Eu e o Nicholas ficamos na calçada, pensando nas nossas opções, já que o tempo estava passando e ainda estávamos a 66 quilômetros do nosso destino final do dia.


Uma das alternativas seria seguir até Puerto Madryn e trocar o pneu lá, mesmo que fosse na manhã seguinte. Mas nós dois tínhamos receio de rodar mais um trecho, por menor que fosse, com o pneu naquele estado. Estávamos a menos de uma hora de Puerto Madryn, então valia a pena esperar para ver se conseguiria o pneu, mesmo que partíssemos a noite.


O homem tinha voltado a trabalhar dentro da enorme borracharia e não sabíamos se ele tinha alguma notícia da loja.


Quando ele passou perto da porta da oficina, eu aproveitei para puxar conversa, na expectativa dele nos atualizar, mas a conversa só serviu para eliminar o nosso plano B.


— Você acha que o nosso pneu, como está, aguenta chegar em Puerto Madryn? — perguntei para ele.


— Chega, sem problema algum — disse o homem.


— Caso não consiga o pneu, estamos pensando em seguir viagem e trocar o pneu em Puerto Madryn.


O homem primeiro me deu uma olhada, como se tentando entender de fato o que eu falei, e em seguida deu uma risada, balançando a cabeça.


— Vocês chegam lá com certeza, mas não vão encontrar pneu nenhum e muito menos quem troque. Puerto Madryn não tem nada. Tudo que eles precisam, eles fazem aqui, em Trelew.


Aquilo me desconsertou, porque era exatamente o oposto do que eu tinha imaginado.


— Sério? Achei que teria uma oficina lá.


— Não existe nenhuma — disse o homem. — Mas fiquem calmos. Vai dar tudo certo. Logo vão retornar sobre o pneu e fazemos a troca.


Queria sentir a tranquilidade que o homem tentava nos transmitir, mas estava ficando cada hora mais difícil. Sabia que precisava resolver naquela oficina e o homem parecia seguro de que daria certo, mas a angústia ia crescendo conforme eu percebia que ele não tinha a mesma pressa que a gente. Ele não sabia que já tínhamos rodando mais de 700 quilômetros naquele dia e que só queríamos chegar rápido e em segurança no nosso próximo hotel.


“As pessoas não têm obrigação de saber os nossos problemas.”


“Mas ele poderia deduzir que estamos sem muita saída.”


“Deveria ter pensado nisso antes de descuidar totalmente do pneu.”


Alguns minutos depois, um grupo chegou ao galpão. Eram amigos do homem que nos atendeu e foram para um pequeno escritório, no fundo do galpão, onde ficaram conversando e dando risadas. Fiquei observando para ver se ele recebia alguma ligação da loja de pneus, mas não vi telefone ser atendido.


Além disso, o homem não prestava mais atenção na gente. Era como se tivesse esquecido completamente do problema, até que, em um certo momento, ele se virou e me notou na porta do galpão. Deve ter percebido que eu estava ansioso por uma resposta e veio em minha direção, sorrindo, como sempre. Seu jeito simpático dava a impressão de que a coisa estava se resolvendo, mas era exatamente o oposto.


— Não encontraram nenhum pneu disponível nas medidas que precisamos — disse o homem ainda sorrindo.


Eu não via motivo para sorrir e não sabia mais o que poderia ser feito.


— Mas precisamos trocar esse pneu de alguma forma. Como vamos seguir viagem? — falei, já pensando em um plano C, que seria dormir em Trelew para tentar outras lojas, oficinas ou borracharias no dia seguinte.


— Qual é o itinerário de viagem de vocês? — quis saber o homem, antes responder minha pergunta.


— Vamos dormir em Puerto Madryn e, amanhã, seguiremos para Bahia Blanca e de lá para Buenos Aires.


O homem foi até o canto da oficina e pegou novamente o pneu mais largo e também careca que tinha nos mostrado logo que chegamos.


— Posso colocar esse pneu na sua moto. Ele aguenta a viagem até Bahia Blanca ou mesmo até Buenos Aires, se quiserem seguir em frente. Mas em Bahia Blanca com certeza vocês encontrarão o pneu.


Parecia uma sugestão que servia mais para resolver o problema dele do que o nosso.


“Ele está dizendo isso apenas para se livrar da gente e voltar para os seus amigos.”


“Mas ele é o único que está disponível para ajudar.”


Toda a minha preocupação com segurança poderia estar um pouco exagerada, mas naquele momento fiquei na dúvida se deveria confiar nele e aceitar a proposta ou procurava um hotel e tentava outras possibilidades.


“Não parece uma solução muito confiável.”


“Mas quem não entende muito do assunto tem que aceitar a solução dos outros.”


— Mas esse pneu não é mais largo? Não é fora da medida? — argumentei.


— Sim, não é o ideal, mas funciona. Não daria certo se fosse o contrário, mais estreito, mas assim resolve.


Olhei para o Nicholas para sentir o que ele pensava sobre aquilo. Ele apenas balançou a cabeça, concordando. Não cheguei a perguntar se ele se sentia seguro com aquela decisão, mas aquele aceno de cabeça me deu confiança. E, naquele momento, era isso que eu precisava.


A maior parte do tempo somos levados a dar esses gestos de apoio e segurança para os nossos filhos, sem demonstrar o verdadeiro receio que estamos sentido, porque os momentos exigem esse ato de passar confiança, mesmo quando há dúvidas. Fiz isso com o Nicholas quando estávamos partindo do posto em Garayalde e agora os papéis se invertiam. Era meu filho fazendo eu me sentir seguro e confiante.


Lembrei que isso já tinha acontecido na viagem anterior, logo após o acidente, a caminho do Atacama.

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