02. Ushuaia planejado pelo Atacama

Uma viagem sempre é planejada levando-se em consideração os erros e os acertos da anterior.


Os acertos geralmente são em maior número e nem pensamos muito neles. Mas os erros, mesmo que poucos ou pequenos, são fundamentais para garantir os aprendizados para que não se repitam.


Com base nessa lógica, posso afirmar que o problema com o pneu da NC quase rasgando nos 199 quilômetros entre Garayalde e Trelew teve origem na viagem que fizemos para o Atacama, onze meses antes de irmos para o Ushuaia.


Houve outras viagens antes dessa, com outros erros e aprendizados, mas eu tinha noção exata do motivo de não ter dado a atenção para aquele pneu durante aqueles dez primeiros dias de viagem.


Depois de uma sucessão de motos, sempre sonhando em fazer viagens longas, mas nunca de fato realizando esses sonhos, comprei uma BMW 1200 GS Adventure e julgava estar pronto para transformar essas viagens em realidade.


Uruguai, Atacama e Ushuaia eram os três primeiros destinos desejados. Três distâncias que funcionariam como uma evolução natural. Cada uma preparando melhor para a próxima.

Eu já tinha feito percursos de grande duração, chegando a percorrer mais de mil quilômetros em um único dia, mas nunca tinha feito viagens realmente longas, com dias seguidos de estrada. Com a BMW, eu acreditava ter a moto ideal para isso e estava disposto a começar a planejar esses roteiros.


A primeira delas foi até bem simples. Consegui fazer em umas férias, sem muito planejamento prévio, afinal eram apenas dois dias de viagem. Rodei de Curitiba até Pelotas em um dia e, no seguinte, completei a viagem até Punta de Leste, no Uruguai, onde encontrei minha esposa e meu filho caçula, que foram de avião, para passarmos uns dias de férias. Uma viagem tranquila e prazerosa, sem nenhuma surpresa.


Depois dessa primeira experiência bem sucedida, comecei a planejar a tão sonhada ida ao Atacama. Pelo número de relatos que eu tinha lido e assistido, considerava uma viagem até mais completa do que a viagem para o Ushuaia, pois combinava uma boa quilometragem, com um destino cheio de lugares interessantes e paisagens incríveis, que eu estava muito a fim de conhecer.


Passei alguns meses planejando o trajeto, as paradas e os quilômetros que rodaria por dia, tudo levando em consideração a viagem ao Uruguai e as experiências prévias.


A GS me permitia planejar dias em que rodaria entre 800 e 900 quilômetros, garantindo chegar ao Atacama em um curto espaço de tempo. Eu não queria ficar muito tempo longe da minha esposa e do filho caçula, que dessa vez não iriam me encontrar lá. Além disso, sempre gostei da ideia de desafio de resistência, que as viagens longas proporcionavam, por isso não me preocupava com os dias longos na estrada.


Levei em consideração minha capacidade física, combinada com a capacidade da minha moto. Porém, já na fase final dos preparativos, fui com o meu filho mais velho a uma loja de acessórios para motos e acabei adicionando um novo elemento nos meus planos.


O Nicholas tinha dezenove anos e já andava de moto. Ele tinha uma Honda Xre 190, que usava basicamente para ir para a faculdade, mas ainda não tinha pego uma estrada.


Na loja de acessórios, enquanto tomávamos um café, começamos a conversar mais sobre a viagem ao Atacama. Contei para ele alguns detalhes que tinha pesquisado sobre alguns trechos interessantes por onde eu iria passar.


Notei que o Nicholas estava empolgado com os detalhes. Falei sobre o viaduto de metal, por onde passa o Trem das Nuvens, em uma cidade pequena da Argentina, já próxima da Cordilheira dos Andes, e ficamos vendo fotos dos locais no celular.



Viaduto La Polvorilla, onde passa o Trem das Nuvens





— Deve ser muito massa ver um negócio desses ao vivo. E ainda chegar lá de moto — disse Nicholas.


Percebendo o interesse do meu filho, tive a ideia que na hora não pareceu maluca, afinal, se eu estava indo, não custaria levar o meu filho junto.


— Você é a fim de ir comigo para o Atacama?


Meu filho deu um sorriso meio incrédulo, mas respondeu rápido.


— Claro que sou.


Só depois de ouvir a resposta percebi que eu nem tinha parado para pensar sobre o convite que fiz. O Nicholas aceitou de imediato, mesmo sem estar claro, nem para mim, que tipo de acompanhante ele seria.


— Você iria na minha moto, na garupa? Ou pilotando a sua? — perguntei para ele. — A gente pode ir dos dois jeitos. É uma questão de saber se você está disposto a ir pilotando a sua moto até o Chile.


Nicholas deu mais um sorriso, ainda em dúvida se deveria falar ou não, como se tentasse descobrir a resposta que eu queria ouvir, mas ao mesmo tempo curtindo a decisão.


— Eu vou na minha moto mesmo — disse ele, seguro.


Gostei da determinação dele e concordei. A partir daquele ponto, mudei a forma de encarar a viagem e passei a imaginar nós dois rodando juntos pelas estradas da Argentina e do Chile. Era diferente pensar nas questões de segurança e nos lugares em que passaríamos nossas noites. Para mim, qualquer pousada ou hostel resolveria, mas pensando na companhia do meu filho, comecei a rever alguns detalhes.


Porém, uma das coisas que não fiz foi rever o trajeto e o cronograma. Eu já tinha estabelecido um prazo para concluir a viagem. O cronograma precisaria fechar no número de dias definidos, porque o plano era usar apenas uma parte das minhas férias para essa viagem e, quando voltasse, curtiria o restante com minha esposa e meus outros dois filhos. Esse equilíbrio dos dias de folga precisava ser mantido e, naquele momento, acompanhar o ritmo de uma moto de baixa cilindrada não parecia ser um grande problema. Assim, tudo o que planejei fazer com a BMW 1200 GSA, mantive para ser feito com a Xre 190.


Eu sabia que isso aumentaria o tempo de pilotagem durante os dias, mas nem imaginava os efeitos colaterais.


A viagem para o Atacama, apesar de ter sido incrível, foi traumática. Eu não tinha noção que a exigência de dias seguidos na estrada era muito diferente do que viajar em um dia e depois retornar, alguns dias depois, como já tinha feito em outras ocasiões. Uma viagem longa de moto é prova de resistência física, mas também é um teste mental. A sequência de dias em cima de uma moto mexe com nossa cabeça e nossos ânimos. Os problemas se multiplicam e ganham outras proporções. E quando esses dias ficam intermináveis, por estar rodando com uma moto que dificilmente passa dos cem quilômetros por hora, as coisas ficam mais desafiadoras.



GS e Xre em em um trecho deserto antes do acidente


Logo no segundo dia de viagem ao Atacama, começamos a ter problemas com folga na corrente da Xre. E o pior: não tínhamos ferramentas apropriadas para esticá-la. Não gosto de admitir, mas sou obrigado a confessar o mais ridículo: na época, eu não sabia como esticar a corrente da moto, já que sempre deixei essa tarefa na mão dos mecânicos.


Para complicar ainda mais esse problema técnico, havia a questão logística.


Como passávamos a maior parte do tempo do dia rodando, não chegávamos nas cidades em que iríamos passara a noite com tempo hábil para encontrar oficinas abertas ou lojas para comprar ferramentas.


Fomos dando um jeito aqui, outro ali, sempre com receio de alguma coisa mais grave acontecer e sempre com o sentimento de culpa me perseguindo.


“Como fui capaz de envolver meu filho em uma loucura dessas?”


“Como eu posso viajar de moto sem saber como consertá-la?”


“Será que vou conseguir evitar que um acidente aconteça?"


Essas questões começaram a preencher meus pensamentos nas longas horas solitárias em cima da moto.


A mente fica comprometida quando a viagem é uma sucessão de dias em que se roda 14 horas, em um calor infernal, esperando a moto quebrar a qualquer momento.


No meio desse processo de auto cobrança e preocupação, antes mesmo de chegar ao destino final, meu filho sofreu um acidente. Teve uma queda em uma estrada de terra, em um trecho de serra, logo depois que deixamos Santo Antônio de Los Cobres, rumo à fronteira do Chile. Felizmente, conseguimos seguir viagem depois do susto.


O retorno foi um pouco mais tranquilo em relação à parte mecânica das motos, mas a chuva prejudicou a experiência nos últimos trechos da viagem. Quando chegamos em Curitiba senti um alívio, pois havíamos vencido aquele desafio e todos os problemas que foram aparecendo ao longo da viagem, mas, já na chegada, comecei a planejar a nossa viagem para o Ushuaia.

Não tinha certeza se o Nicholas tinha gostado da experiência, mas me sentia na obrigação de oferecer uma nova oportunidade de viver algo mais legal e com menos sofrimento. Queria dar a ele uma experiência do que eu já tinha vivido antes, nas minhas outras viagens.


A viagem do Atacama me fez tomar a decisão de ir para o Ushuaia já no mesmo ano, mas com um planejamento melhor.


Pelo menos eu achava que estava planejando melhor.


Meu sonho era dar ao meu filho uma experiência positiva, que fizesse ele se apaixonar, não só por viagens de moto, mas também por esse desafio de longas distâncias.


Desde que eu comecei a viajar de moto, conheci as histórias de resistência dos pilotos do Iron Butt Rally e seus desafios absurdos. Sempre me imaginei fazendo algo parecido. Gostava dessa mentalidade de enduro, de resistência sobrehumana, de horas seguidas em cima de uma moto, muita quilometragem por dia, com vários dias seguidos. Eu sonhava com essas viagens de dias inteiros na estrada. O importante não era o destino, mas me sentir capaz de vencer esses desafios.


Foi por conta disso tudo que eu não mudei o cronograma para o Atacama e acabei pagando o preço de uma viagem muito sofrida e desgastante, para mim e principalmente para o meu filho.


Então, quando planejei a viagem para o Ushuaia, resolvi compensar os sofrimentos que tivemos.


A principal decisão era comprar uma moto mais potente, na faixa de 500 a 800 cilindradas, para que o Nicholas pudesse curtir mais a viagem e pudéssemos passar menos horas em cima da moto, além de viajar com mais segurança e tranquilidade.


A ideia inicial seria comprar uma Honda CB 500X nova, mas eu estava aberto à possibilidade de pegar um outro modelo usado, provavelmente uma BMW 650.


Quando eu estava na concessionária Honda, descobrindo quando poderiam entregar a CB 500X e analisando se daria tempo de fazer a primeira revisão antes de viajarmos, encontrei uma NC 700X, com ABS, seminova na própria loja. Uma moto na medida certa para o uso no dia a dia e para uma viagem longa. O tanque não tem tanta capacidade, mas já estávamos acostumados a andar com um galão extra para ter mais autonomia e segurança.



GS e a NC a caminho do Ushuaia




Fechei o negócio e já deixei meu filho usando a moto para ir se acostumando com a potência, com a ciclística e com a ergonomia da moto. Até aquele momento ele só tinha andado em motos com menos de 200 cilindradas.


A concessionária Honda tinha feito a revisão antes de colocá-la à venda e o chefe da oficina garantiu que a moto estava pronta para a pegar a estrada. De qualquer forma, quando levei a BMW para fazer a revisão e troca de pneus antes da partida, aproveitei para consultar sobre a única dúvida que tinha ficado desde que peguei a NC: a vida útil dos pneus. Eles estavam bons, mas, como o vendedor da Honda não conseguiu me informar quantos quilômetros já tinham sido rodados desde a última troca, não sabíamos ao certo quantos quilômetros restavam pela frente.


Levei a moto para o pessoal da oficina que estava cuidando da BMW para que pudessem me dizer o que achavam.


Logo que viram a moto, os mecânicos disseram que os pneus ainda aguentavam um bom tempo.


— Posso viajar com ela? — perguntei, para ter uma resposta mais objetiva.


— Com certeza — foram categóricos.


— Mesmo uma viagem longa?


— Quantos quilômetros?


— Vamos para o Ushuaia. Serão uns dez mil quilômetros. Talvez onze.


O mecânico mais experiente do grupo fez uma cara mais séria e coçou a cabeça. Voltou a olhar o pneu e passou os dedos pelos sulcos da borracha.


— O pneu aguenta — disse ele. — Vai chegar no osso, mas vai chegar.


“Vai chegar no osso, mas vai chegar.”


Essa resposta se repetiria várias vezes na minha cabeça ao longo do trecho mais tenso da viagem, mas, naquela hora, na oficina, soou apenas como uma confirmação simples de que eu não precisaria fazer a troca naquele momento. De qualquer forma, quando voltasse de viagem, a primeira coisa que eu faria seria levar a moto para revisão, então esse seria o momento ideal para trocar os pneus.


Se eu soubesse o que aconteceria e tudo o que tivemos que passar, eu deixaria a dúvida para trás e partiria com os pneus novos. Hoje eu sei que, na minha próxima viagem, não importará o nível de desgaste dos pneus, eu sairei com pneus novos. É muito melhor sair com o pneu zero e ter uma ideia mais clara da sua vida útil, do que correr o risco de gastá-lo totalmente e ter que trocar no meio do percurso. No dia a dia da estrada, fazer uma troca dessas não é tão simples. Antes de partir, podemos fazer tudo com calma, tendo acesso às oficinas que confiamos, sem pressa e, além de tudo, entendendo a língua que estão falando.

Porém, naquele momento, tendo apenas a experiência do Atacama, em que o grande problema foi a corrente, não pensei muito nos outros detalhes. Comprei as ferramentas certas e um bom lubrificante de corrente, já planejando lubrificá-la todos os dias, mas em nenhum momento o pneu pareceu ser um problema. Até, é claro, tornar-se o maior deles.


Uma experiência marcante do passado nos deixa presos a certos detalhes e temos a tendência de focarmos neles, mas devemos ficar atentos a tudo que acontece na moto e na viagem, olhar os pontos de desgaste e o que pode estar se deteriorando durante o processo. Em um momento pode ser a corrente, em outro, o pneu, mas existem todos os outros itens e acessórios que precisam ser sempre observados: freios, lubrificantes, quadro, roda, suspensão, ABS.


Outro aprendizado que passei a levar para toda a vida é prestar atenção nas coisas que são fundametais. As coisas que precisam estar bem para poder seguir em frente, sejam elas físicas ou mentais.


Quando sentimos alguma dor, é um sinal de que precisamos parar e observar com atenção a causa. É importante reconhecermos sintomas, mas é fundamental tratarmos o foco do que está causando aquela dor. E é importante observar o todo. Não se pode negligenciar as outras partes do sistema só porque uma dor apareceu em um ponto específico.


E precisamos estar atentos a toda a parte física, mas também a nossa mente. Muitas vezes a mente é o nosso pneu. Ela se desgasta enquanto estamos tentando fazer todo o esforço físico capaz de superar as coisas do dia a dia, no trabalho, nos estudos, na família. Se não ficarmos atentos, quando pararmos para observar, é a nossa mente que pode já estar chegando no osso e podemos não conseguir mais recuperar, ou estaremos em um momento sem apoio. Quando não nos cuidamos de forma preventiva, pode ser mais difícil corrigir os problemas, porque só serão perceptíveis quando estiverem revelando sua camada mais profunda e o risco de algo grave acontecer está próximo.


As viagens ensinam muito e a fase de planejamento é um momento importante desse aprendizado, pois é a chance de imaginarmos tudo que pode acontecer. Como defesa natural, nossa mente evita pensar no pior, mas quanto mais se pensa em todas a possibilidades, mais podemos tomar as melhores decisões. A viagem começa nessas decisões e sabemos que vamos ter que arcar com elas, sendo boas ou ruins, previstas ou imprevistas.


Quando a decisão errada causa problemas durante a viagem, elas te assombram por um bom tempo. E você vai ter que conviver com essas escolhas e com os efeitos colaterais que o risco trouxer.


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