É isso, vou ter que vender minha Bullet?


Motivo da minha angústia

“Nossa Thiago, você vai amar essa moto”, disse jornalista do setor ao me encontrar logo após o lançamento semi-faraônico da Royal Enfield Interceptor 650 em 2019 na Califórnia. Foi aí, pessoas, que começou meu sofrimento. Teve o lançamento no Brasil, mais pessoas falaram que eu ia adorar a moto. E, de fato, desde o primeiro vídeo oficial das 650 andando, meu queixo caiu.


Gravei um vídeo ótimo no Salão Duas Rodas, ajoelhado e com cara de desespero ao lado de uma Interceptor laranja. Bem caça-clique e deu certo. Questione meus métodos, não meus resultados. Fui na loja quando elas chegaram para comprar. Não consegui andar porque a fila do teste-drive estava grande, mas gravei outro vídeo, sentei nela, liguei a moto, senti o ronco.


E quanto mais tempo passava, mais as pessoas iam me perguntando quando eu ia vender a minha Bullet 500 e comprar a Interceptor 650. No fim de 2019, a minha resposta era: “assim que o dinheiro der”. Hoje, já não tenho tanta certeza e o lado financeiro nada tem com isso, parece que a minha cabeça mudou, vai entender.


Preciso dizer que ainda não andei em nenhuma das duas 650 novas da Royal Enfield. Talvez nem queira mais, não sei. A empolgação parece que passou. Só que o timing disso é extremamente esquisito. Como disse várias vezes, eu sou meio esquisito. Minha jornada de superar a Interceptor, por incrível que pareça, veio da Bullet.



Essa é a minha Bullet. Suja, amassada e com muito história

Bullet esta que comprei zero em 2017. Gravei vários vídeos, fiquei famosinho na época. Era encostar na loja da Royal que alguém vinha falar que tinha comprado uma Bullet ou uma Classic por minha causa. Com isso, os executivos da Royal viraram conhecidos meus, ganhei boné da marca no Salão Duas Rodas, estava sempre nos eventos. Assim como a Karina Simões está para a Triumph, eu estava para a Royal Enfield. Era uma versão mais barata de um embaixador de marca.


Enfim, vamos a 2020 e os 20 mil km da minha Bullet. Claro que ela deu defeitos. Parafuso de para-lama perdido na rua tenho vários. Já tive acidente bem sério com ela. Fiz Brasília-São Paulo em um dia, sem parar para dormir. Fui à capital federal em 2018 para visitar, vejam só, o pessoal do Motorama. Não consegui, risos nervosos. O pneu traseiro está indo para o saco, o freio vai precisar fazer na próxima revisão e, três anos de uso soviético depois, defeitos mais sérios apareceram.



Bullet e a Kombi dos meus pais

Na semana passada - referência temporal inútil porque não sei quando vocês lerão isso - fui visitar meus pais. No meio da quarentena, prestes a se aposentar, compraram uma Kombi e construíram um motorhome nela. Agora, os encontros de família dependem de qual lugar do Brasil eles estavam acampando. Dessa vez, em Itu, uns 100 km da minha casa.


Cheguei lá e observo algo equivalente a encontrar seu primeiro cabelo branco: óleo acumulado nas laterais do cabeçote. Meu primeiro pensamento foi “é isso, tá na hora de vender a Bullet”. Nesse momento senti até uma dor no coração, desfazer-me (aprendam o uso de ênclise) dela seria me desfazer de todas as memórias com a Bullet.


Mas também seria uma oportunidade para me abrir a uma nova experiência, ter uma moto que encara estrada sem restrições, ia dar mais view no meu canal, o Guigo ia virar meu amigo. Enfim, um mundo de possibilidades ia se abrir a partir do momento que eu chegasse em casa com uma Interceptor 650 Orange Crush. Reparem que já escolhi a cor. Percebam que em nenhuma das afirmações supracitadas (tô falando bonito hoje, Jesus) aparecia “ia me deixar mais feliz”.



Acabou o asfalto. Meu deus, que problemão

Mas aí eu olho de volta para a Bullet, suja, com o tanque amassado, vazando óleo. É pior que olhar pra filhote de cachorro que fez lambança, não dá pra ficar bravo. Aí lembro que, conforme ensinado a mim por uma Honda CB 400, óleo pode vazar, mas não pode faltar; meu mecânico de confiança já mexe em Royal Enfield; são R$ 10 mil extras de dinheiro do meu bolso pra pegar a Interceptor.


Lembro que a sujeira é do meu último rolê, o amassado do tanque é da minha bota prensada contra o asfalto quando eu caí, o óleo é pra me lembrar de maneirar a mão. Lembro dos arcos ferroviários saindo de Franca com raios de sol entre eles e da chuva torrencial que quase me derrubou em Catalão. Lembro do primeiro rolê com ela na minha estrada favorita, da batida constante e grave do motor. É isso, a moto deu um vazamento de óleo e já quero desistir dela? Hoje não, Rodrigo Faro.


Tenho que dar o braço a torcer. As 650 novas da Royal Enfield são objetivamente melhores em todos os aspectos em relação à Bullet 500. Não vibram, andam bem mais, são mais preparadas. Desculpas não faltam para trocar de moto. Mas aí eu tive que buscar na memória o que eu pensei quando eu comprei a minha Bullet.


Não queria uma moto simples, não queria uma moto silenciosa. Comprei a Bullet exatamente porque ela vibra, faz barulho, não responde sempre quando você quer. Ela não facilita nada para você. Só que aí, queridxs seres humaninhos, nós nos adaptamos, aprendemos, evoluímos. Eu comprei a Bullet exatamente para ter uma moto simples e que não fizesse nada para mim. Queria fazer, não deixar a moto fazer por mim. As 650, por outro lado, já são um passo na direção oposta, mesmo que pequeno.


Não é para mim. E tudo bem se for a melhor escolha para você. Só lembre que essa história de ficar trocando de moto toda hora é fruto de um marketing predatório que incentiva um consumismo desenfreado. Ok, volta um pouco que acho que peguei pesado com vocês (me ajuda super-filósofo Mazagão).


É fácil se render à ideia vendida de que novas coisas te trarão novas experiências. O difícil é saber quando você não precisa de uma moto nova para saber que pode criar novas memórias. Coisas não criam memórias. Nós criamos memórias com as coisas. Quanto mais memórias, mais difícil é se desfazer dos objetos. Cair no troca-troca anual de moto talvez seja melhor. É mais fácil para vender.



Quanto vale a sua memória?

Ainda não decidi se vou trocar a Bullet pela Interceptor, vou esperar andar de verdade para bater o martelo. Mas hoje, mais do que nunca, sei que a 650 vai precisar comer muito arroz com feijão para me convencer. Se mesmo assim você ainda estiver pensando em trocar sua moto velha por uma nova, vou mandar um mantra: “quanto valem a suas memórias”?


Dica para o feriado: dêem um abraço na sua moto, fotografem e me marquem no @thiago__moreno no Instagram. Quero ver se vocês gostam tanto assim das suas motos mesmo. Marquem o Motorama também, né? Usem a #amominhamoto


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